domingo, 4 de maio de 2014

Sociedade de consumo, propaganda e a imposição da felicidade



Depois de um dia de trabalho, você chega em casa. Está cansada. Trabalhou o dia inteiro e, com a cabeça cheia de preocupações, quer simplesmente cair no sofá e descansar. Você liga a tv e começa a assistir uma propaganda de uma máquina de lavar louças. Na propaganda, uma mulher, parecida com você, que está cansada com o dia a dia do trabalho de cuidar do lar, lava uma pilha de louças com olhar triste. Ela está pensando em todas as coisas que poderia fazer se não tivesse que lavar louça: correr na esteira, ler um livro, ficar com a sua família. Ora!, seus problemas estão resolvidos! Você já sabe o que tem que fazer para ter uma vida mais feliz: comprar uma máquina de lavar louças.
Para alcançar esse objeto mágico que trará sua felicidade tão esperada, o dinheiro que você ganha não basta. É preciso fazer algo mais. Um bico: você começa a vender brigadeiros. Agora, ao chegar em casa às 18h, você vai para a cozinha fazer brigadeiro, enrolar brigadeiro, embalar brigadeiro. Seu descanso, que antes era às 18:30h, agora começa às 21h. O tempo que você tinha para correr na esteira, ler um livro, ficar com a sua família, agora você gasta fazendo brigadeiro.
Pois bem, você consegue guardar o dinheiro necessário para comprar a tal da máquina de lavar louças. Você compra a máquina, novinha, branquinha, lindinha. Mas a tal da felicidade não vem. Será que a máquina veio com defeito? Talvez a pecinha “seja feliz” esteja faltando... E agora? Você comprou a máquina esperando que ela resolvesse todos os seus problemas, mas a única coisa que ela faz é lavar sua louça.
Este parece um exemplo bobo, mas mostra bem como a propaganda afeta nossas vidas em diversos níveis. Como diz Bauman, é característica da pós-modernidade acreditar na ilusão de que a felicidade se compra, e dentro dessa modernidade líquida, onde ser é ter, onde tudo se vai tão logo quando veio numa fluidez sem igual, a propaganda tem um papel importantíssimo na relação que estabelecemos com as coisas. Peguemos o caso descrito acima: antes de mais nada, podemos notar a fixação de papeis sociais previamente estabelecidos: uma mulher lava a louça, não um homem. A mídia – propagandas inclusive – influenciam os estereótipos e as representações sociais, podendo reforçar padrões ou propor novas maneiras de enxerga-los. Entende-se por representação social o conjunto de significados que um indivíduo estabelece acerca de um fenômeno social, conjunto este que, como mostra Silvia Lane, está intimamente ligado ao lugar social que cada um ocupa e é mediado pela linguagem. Dessa forma, o que é dito e mostrado na televisão influencia a maneira que compreendemos o mundo real. É a partir daí que podemos entender que nossa personagem compre a máquina de lavar louças esperando que ela traga felicidade: se a propaganda mostra isso, extrapolamos essa relação para a nossa realidade e esperamos que ter a máquina surta sobre nossas vidas o mesmo efeito que, teoricamente, surtiu sobre a vida da moça dentro do televisor.
Nessa relação que se estabelece entre a máquina de lavar louças e a felicidade, algumas coisas ficam evidentes (todas elas muito próprias da nossa sociedade ocidental capitalista pós-moderna): a felicidade depende do consumo. Alcança-la não depende mais de construir boas relações com o próximo e apreender a vida como uma coisa positiva, mas de ter dinheiro para compra-la. Porém, existe um paradoxo intencionalmente insuperável nessa relação felicidade-sociedade de consumo: A mesma sociedade que obriga os indivíduos a serem consumidores felizes faz com que seja impossível alcançar essa felicidade, pois como qualquer outro bem de consumo, ela fica ultrapassada e um novo bem, melhor, surge no mercado para que você compre. Assim, a felicidade comprada como um bem, dentro da lógica de consumo, dura até que surja um novo bem capaz de trazer mais felicidade, e não tê-lo te faz infeliz. Mas você não pode ser infeliz! Você precisa, então, ter esse novo bem. E aí, logo depois, surgirá um outro novo bem, ainda melhor que o segundo, e segue-se o ciclo infinito...
Lolita Pille, uma jovem escritora francesa, trata desse assunto em sua obra “Cidade da Penumbra”. Uma sociedade perfeita, onde todos são obrigados por mecanismos legais de controle a ser feliz, tem que lidar com o caos social decorrente dessa obrigação à felicidade. A legalização da pedofilia, a criação de um Ministério de Serviço de Proteção Contra Si Mesmo, o direito inviolável de fazer cirurgias plásticas, celulares que rastreiam as pessoas e avisam companheiros românticos em potencial, casamentos que expiram depois de quatro anos de convívio para que ninguém jamais tenha que viver uma relação infeliz, são alguns dos meios de controle e coersão. O resultado é a alienação dos indivíduos, uma anomia que impossibilita que se perceba a situação de precariedade em que se encontram.
Seja na Cidade da Penumbra, seja na sociedade real, a propaganda é mecanismo essencial para enfiar a felicidade goela abaixo – e essa imposição não é aleatória, mas sim muito bem fundamentada nos interesses econômicos e políticos que permeiam a sociedade de consumo. Hannah Arendt explicita bem os problemas dessa sociedade que mata a singularidade e prega que os bens de consumo, a arte e as próprias pessoas são descartáveis e substituíveis. Nessa busca desenfreada por bens materiais que nos tragam felicidade, às vezes deixamos de perceber que a imposição de valores sobre o que é bom ou ruim para nós caracteriza uma violência, um atentado contra o direito de escolha, o direito de estar triste e mais: contra nossa condição humana de pluralidade em que, numa teia social de relações entre seres humanos iguais, somos únicos.
O sistema econômico vigente, que tem se mostrado insustentável seja no ponto de vista das relações humanas, seja no ponto de vista da sustentabilidade, nos faz ir de encontro com algumas dificuldades na busca por um novo modelo de ser-no-mundo que ultrapasse a lógica de consumo. Claro que todas essas questões estão ligadas a questões políticas e econômicas, mas para superar essas dificuldades é preciso, antes de mais nada, lembrar que, do mesmo modo que modelo vigente foi feito por pessoas, ele pode ser modificado por pessoas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário