Que vivemos em uma sociedade machista,
todos sabemos. O feminismo, enquanto teoria e militância, vem pondo em xeque as
relações de gênero, a dominação da mulher pelo homem e tem discutido o lugar da
mulher na sociedade, sempre lutando pela igualdade e pelo fim da violência de
gênero. Um dos pontos principais que o feminismo vem discutindo, especialmente
a partir das teorias queer, é a
reprodução do discurso machista pela mulher. O Causas postou, há pouco tempo,
uma entrevista que a historiadora Mary Del Priore deu à BBC falando sobre o
assunto [link]. Agora, trazemos para vocês uma entrevista com Andréa Benetti, pedagoga, ativista
feminista e administradora da página do facebook “Moça, você é machista”, plataforma através da qual tenta suscitar
debates acerca do lugar da mulher na sociedade atual bem como a evolução do
próprio movimento feminista. Para acessar a página “Moça, você é machista” no
facebook, clique aqui [link: https://www.facebook.com/MocaVoceEMachista?fref=ts]
Confira a seguir a entrevista
exclusiva:
A
primeira coisa que eu queria perguntar é de onde veio a ideia de criar a página
[Moça, você é machista]?
A gente tinha uma página mais teórica,
que é a “Gênero em Questão” onde a gente escrevia artigos. Eu estava me
formando ainda, foi na época do TCC. Eu escrevia e o Vitor, que é meu sócio e
que também faz pedagogia e vai se formar agora, também escrevia e o irmão gêmeo
dele entrou mais para fazer o design mas também fazia alguns posts. Ela tinha
acho que umas 3000 curtidas, não era uma página muito grande porque ficou
voltada para um público muito mais acadêmico. Na época, começou a aparecer um
monte de página com o começo “moça”: “moça, seu namorado é gay”, moça isso,
moça aquilo, e a gente viu que os comentários machistas eram muito vindos de
mulheres, né, e de brincadeira a gente falou “ah, vamos montar uma ‘moça, você
é machista’”. O Vitor fez e falou “Andréa, te coloquei de administradora” e aí
a gente começou a fazer “moça, você fala que uma mulher vestida de saia curta é
vadia? Moça, você que é machista”. A gente pensou “vamos alertar a mulher para
esse reforço do machismo porque a gente acredita que a mulher reproduz, sim, os
conceitos machistas da sociedade. Só que é diferente, a culpailização é quando
você diz que a culpa por a mulher ter sido estuprada é dela, que a culpa de ter
sido violentada é dela. Isso sim é culpabilização. O “Moça” nunca fez isso e
nem tem nenhum post, nenhum viés que a gente acredita que fala isso. Ao
contrário, o propósito é esse alerta porque a gente acredita que o principal
foco do feminismo tem que ser trabalhar a própria mulher com essa
conscientização de parar de reforçar alguns conceitos. Por isso que a gente fez
[a página].
Tem
algumas abordagens que tratam o machismo como um fato social presente tanto no
discurso do homem quanto no discurso da mulher, e essas abordagens tendem a
sofrer um pouco de “preconceito” da parte mais conservadora do movimento
feminista que fala exatamente dessa questão da culpabilização da vitima. Você
não acha que, às vezes, o próprio feminismo se posiciona de maneira sexista e
acaba reproduzindo o discurso contra o qual ele luta?
Acho. Isso até é uma crítica teórica
das feministas queer, elas falam
isso: qualquer discurso sexista dentro do feminismo na verdade ele está
reforçando os padrões de gênero contra o qual ele quer lutar. Isso acontece
também quando a gente não aceita homem fazendo teoria ou trabalhando dentro do
feminismo, de alguma forma fazendo algum tipo de pesquisa ou trabalho militante.
Eu acho que esse feminismo que, na verdade, não aceita falar que a mulher
reforça os padrões nem sei se ele é tradicional ou se talvez não tenha parado
pra atentar mesmo que, por exemplo, a nossa sociedade é patriarcal, o modelo da
sociedade é calcado num modelo machista e tanto homens quanto mulheres estão na
mesma sociedade. Então, o fato de eu falar que a mulher é machista não quer
dizer que eu estou falando que a mulher é culpada pela violência que ela sofre,
o que eu estou falando é que ela reproduz, e é natural que ela reproduza, todos
esses conceitos sob os quais a gente vive desde criança. Então, atentar para
isso, começar a racionalizar, a raciocinar, e parar de repetir esses discursos
é que é a função do feminismo. Eu acho que é ingênuo falar “não, o homem é
opressor e a mulher é oprimida”, só assim. Isso não é uma verdade absoluta.
Todos estão na mesma sociedade, né, apesar do homem ser construído como
opressor a mulher também reforça esses padrões quando ela fala, embora ela não
tenha essa mesma função, né, de violência e de estupro que a gente sabe que é
mais do lado masculino.
Antes
de começarmos, você estava comentando das críticas que a página tem recebido em
relação ao nome, que dizem que chamar a mulher de machista seria culpabilizar a
vítima. Como é que você se posicionaram, na página, frente a essas críticas?
A gente entendeu as críticas mas, na
verdade, a gente não recebeu nenhuma crítica de gente que veio conversar e
falar “olha, esse nome, por que foi escolhido?”. A gente sofreu foram ataques,
mesmo, ataques violentos de feministas que achavam que a página culpabilizava.
Eu me preocupo no sentido de ficar um pouco triste porque é feminista brigando
com feminista. Eu entendo que o nome do “Moça”, como a gente fez meio que por
causa das outras páginas “moça”, ele possa trazer uma coisa dúbia, mas basta
entrar para ver os posts e a forma como a gente trabalha para saber que é
feminismo e que luta por igualdade. Então, o que me deixa preocupada é que
quebra o movimento no meio, você tem feminista brigando com outra feminista e
na verdade todo mundo tem o mesmo ideal de igualdade. Começa a enfraquecer o
movimento, porque ao invés de eu lutar contra toda a sociedade patriarcal,
contra o modelo machista que eu tenho, enquanto a gente está brigando tem uma
mulher sendo espancada a cada cinco minutos. Quem perde com isso é a
mulher e isso enfraquece o movimento. A
gente não vê problema nas pessoas verem o feminismo de um outro viés ou de
criticar ou discordar do que o “Moça” faz, eu vejo problema em ataque gratuito
de feministas como a gente tem tido, mas é nosso trabalho e a gente não
pretende parar não.
Você
não acha que esse posicionamento mais autoritário e dogmático do feminismo que
diz “feminismo é isso, e não isso” não é, na verdade, uma barreira pra
reestruturar as relações de gênero?
Sim. Eu acho que a gente nem pode
falar, na pós-modernidade, em um feminismo só. Acho que a gente vai ter mesmo,
como tem feminilidades, masculinidades, orientações múltiplas, sexualidades e
vivências de gêneros, a gente vai ter feminismos. Porque a minha forma de
entender o feminismo e a manifestação dos gêneros na cultura não vai ser igual
a de uma outra pessoa que estudou uma abordagem diferente ou que teve uma
vivência diferente, e eu não acho problemático ter vários vieses do feminismo.
O que eu acho problemático é um querer embater com o outro, “o meu é certo e o
seu é errado”. Se o foco da luta é o mesmo, a igualdade de gênero, acho que não
tem porquê a gente brigar entre a gente, até porque o inimigo é outro.
O
relacionamento aberto está cada vez mais presente como uma forma de se
relacionar, e isso tem muito a ver com o próprio feminismo quando põe em xeque
o relacionamento com o outro como controle do corpo do outro. O que você pensa
desse tipo de relacionamento?
Eu penso que o relacionamento
tradicional como a gente tem, da família nuclear (pai, mãe e filhos), ele
descende de um modo capitalista de vida. A gente tem esse modelo como um modelo
único; quando tem propriedade privada e começa a ter a questão da herança a
gente fecha aquilo: eu, minha mulher e meus filhos, não vou passar herança pra
filho de outro. Só que, desde então, acho que o único modelo tido como certo é
esse e essa questão é problemática porque a gente fechou isso. Michel Foucault
fala isso: o casal legítimo procriador encerrou o sexo, não só o sexo, mas o
tipo de relacionamento, pra dentro do quarto, e a gente passou a não ver outras
formas, a forma do sexo homossexual, lésbico, o relacionamento aberto ou
qualquer outro tipo começa a ser um tipo marginalizado. Meu relacionamento é
aberto, já faz 7 anos que a gente está junto. A gente casou numa cerimônia
humanista por isso, porque a gente conseguiu perceber toda essa trama social de
que essa posse do corpo do outro não era necessária. Eu não acho que a única
forma de ver o relacionamento seja essa, pra cada um funciona de um jeito. Para
mim, é uma liberação desse modelo único, dessa necessidade de controlar o corpo
do outro, eu acho que é muito positivo as novas formas de relacionamento se
multiplicarem. Eu acho ótimo.
Uma
das principais consequências da opressão da mulher pela lógica machista está na
relação que ela estabelece com o sexo e com o próprio corpo dela. Toda a
repressão sexual que a mulher sofreu faz com que o sexo ainda seja tabu para
muitas delas. Existe essa dificuldade de falar abertamente sobre o assunto e
isso influencia fortemente a autoestima, a autoimagem e a própria qualidade de
vida da mulher. Como você acha que o feminismo é capaz de reorganizar essa relação
que a mulher tem com a sua sexualidade?
Eu acho que essa questão do reforço é
um dos pontos. Quando eu começo a perceber que meu discurso e a forma de
controlar a sexualidade feminina é uma forma de machismo, aí eu acho que eu
consigo raciocinar e quebrar isso. Quando eu critico uma mulher que é livre
sexualmente eu estou reforçando o machismo; a partir do momento em que eu me
dou conta disso, que eu falo “essa mulher é livre sexualmente, e daí? É o corpo
dela, o que ela faz da vida dela não influencia no caráter”, eu começo a
perceber que tem desigualdade, que o homem é livre sexualmente e não tem
críticas, ou não tem críticas da forma que a mulher tem, a gente começa a ver
que não há equilíbrio, por isso eu falo
do reforço das falas e dos discursos. Quanto menos a mulher repetir isso e
acusar a outra e começar a achar que a menina que faz sexo de tal ou tal jeito
é incompetente profissionalmente, não é boa mãe, coisas sem sentido mas que a
gente tem como verdade, quanto mais a gente começa a questionar, raciocinar em
cima disso acho que tem uma quebra. Eu só sou livre sexualmente quando eu
entendo que o que eu faço na cama não influencia o que eu sou na minha vida
como profissional, como pessoa, e que a liberdade sexual é um direito, é
necessária. Começa a não importar mais o que os conceitos sociais trazem sobre
mim e sobre outras mulheres, a forma de viver muda, de viver e de ver o sexo e
a sexualidade. Mas não é fácil para a mulher, é difícil porque a gente é criado
numa sociedade opressora, machista, falocêntrica, que regula os corpos, regula
os comportamentos, então sair completamente disso é impossível e sair um
pouquinho disso é muito difícil, mas é possível.
Essa
é até uma das razões da página existir, não é? Suscitar esse tipo de debate e
apontar pra esse machismo que a própria mulher reproduz...
Sem dúvidas. E que as vezes a gente
não percebe porque a gente tem como verdade. Todas essas premissas elas são tão
um status na sociedade que a gente
tem como verdade. Quando apareceu o vídeo daquela menina, de 13 segundos, que
tava com o namorado na cama, foi o maior escândalo e mais mulher comentava
falando. A gente tem como verdade que uma mulher que age dessa forma não
presta, passou a ser incompetente, então ela tem que perder o emprego, a
família dela não pode conversar mais com ela, a gente tem isso tudo como
verdade, ninguém parou para questionar além da hipocrisia, né. Todo mundo faz,
mas na hora que uma mulher é filmada fazendo aquilo ali, além da hipocrisia a
gente tem essas premissas tidas como verdadeiras. Quebrar isso é também o papel
da página quando a gente começa a debater, a próxima que aparecer num vídeo
desse, as 232 mil pessoas da página já vão ter uma reflexão maior: por que não?
Por que o cara ficou de herói? Por que a moça é sempre humilhada quando ela
aparece em uma situação de sexo? Isso é importante.
Se
você pudesse elencar as principais diferenças entre o movimento feminista no
Brasil na década de 60 e hoje em dia, quais você colocaria como diferenças
importantes?
Nos anos 60 foi uma luta básica, uma
luta de sobrevivência. A Simone de Beauvoir tem um texto dela que ela fala que
a relação amorosa entre um homem e uma mulher era um risco de vida. Hoje é
ainda, considerando o índice de violência no Brasil, é ainda, mas a mulher era propriedade
do homem de uma forma que a gente não consegue imaginar. O movimento feminista
dos anos 50, 60 foi hiper importante, a gente só tá aqui de calça jeans,
sentada do jeito que eu estou, sem cruzar a perna direitinho e estudando numa
escola noturna, trabalhando em diversas funções porque elas foram à frente,
elas brigaram, exigiram um lugar, né. Antes disso, as mulheres tinham sido
queimadas na fábrica que fez o 8 de março ser dia internacional da mulher. A
gente não pode desprezar essa luta feminista. Foi mais por um ponto básico, por
voto, pelo direito de trabalhar, era uma luta básica de sobrevivência. Hoje em
dia, a gente conseguiu alguma coisa mas eu costumo falar que a gente não saiu
tanto assim dessa realidade quanto a gente gostaria ou imagina que tenha saído.
A gente trabalha, mas ganha 30% menos [que o homem] nas mesmas funções, a gente
é violentamente espancada a cada cinco minutos, os índices de estupro no Brasil
são absurdamente altos, então a gente saiu mesmo dessa situação de estar na retaguarda
da sociedade? Nem tanto assim, né. Mas eu acho que os vieses se multiplicaram
também. A forma de enxergar o homem, enxergar os relacionamentos,
principalmente as questões de orientação sexual, elas se modificaram, então o
feminismo hoje em dia, com as teorias, é multiplicado, os focos são vários.
Isso é bom, porque a gente passa a discutir muitas coisas como, por exemplo, as
questões LGBT não eram discutidas dentro do feminismo lá nos anos 60 e hoje em
dia são parte da teoria feminista.
Como
você compreende o lugar da mulher na sociedade ocidental capitalista do século
XXI?
Eu acho que ela ainda está ocupando um
lugar que a sociedade patriarcal capitalista deixou para ela. A gente precisa
da mulher no mercado de trabalho, a gente sabe que se não tivesse um tantão de
mulher trabalhando nisso a sociedade não vai andar como ela anda. Acho que não
tem esse reconhecimento e essa liberdade toda que a gente imagina que tenha
conseguido. Às vezes alguém entra na página e fala “ah, a gente já conseguiu
tudo, esse papo de feminismo de vocês aí já era, a gente já está em situação de
igualdade”. Ou essa pessoa não sabe dos números ou ela está mal informada em
questão principalmente da liberdade sexual, a liberdade de fala, de
comportamento, liberdade de orientação sexual, liberdade de qualquer coisa.
Acho que todas essas lutas, a étnica também, a por direitos de igualdade sexual
e de gênero, nenhuma delas está completa. O Brasil é um país racista, machista,
homofóbico, a gente mata gay na rua... mas acho que a gente chegou em um ponto
da sociedade em que essas lutar estão convergindo pra um ponto legal, para uma
discussão, principalmente com a internet, com o cyberativismo, agora, pra um
ponto de culminância, de debate intenso e isso tudo é ótimo, por isso que as
críticas são boas, porque fazem a gente rever a própria teoria, a própria forma
de militar sempre. Isso eu acho que é o mais importante.
[Texto publicado no site Causas Perdidas]
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