domingo, 4 de maio de 2014

Espancamento na Fundação Casa: possíveis diálogos com o debate da redução da maioridade penal



"Como são injustos certos sujeitos privilegiados (...) e a maioria das instituições de nossa sociedade que exigem que a ordem floresça onde, ao contrário, se semeou desordem; que foice tão igual para terrenos tão desiguais. Quantas vezes os mais intolerantes são precisamente os responsáveis econômico-político-sociais de um caos que depois é preciso reprimir porque na hora devida não foi conveniente remediar."
Enrique Martínez Reguera
            “Imagens mostram funcionários da Fundação Casa espancando menores”. Essa é a manchete da notícia que tem rodado jornais, sites, e programas de TV como o Fantástico, desde que foi divulgado o vídeo que mostra agentes da Fundação atacando brutal e violentamente adolescentes seminus. Depois do episódio, o diretor foi afastado. O Ministério Público vai investigar os acontecimentos. Uma pergunta continua martelando minha cabeça: e os meninos, como ficam?
            Dos 103 adolescentes que estão internados na unidade de Itaquera da Fundação Casa, 59 fugiram no último dia 12. Eles escalaram o muro, pularam o arame farpado e escorregaram em uma árvore do lado de fora, próxima ao muro. Ouvi muitos comentários sobre como foi um descuido não retirarem a árvore dali, já que ela facilitou a fuga. Me parece, porém, que a discussão tomou o rumo errado. O relevante não é o “como fogem?”, mas o “por quê fogem?”. Privados de liberdade, malvistos pela sociedade, excluídos do convívio e da família (isso quando têm famílias), marginalizados, esquecidos, odiados... pode ser que, nesse lugar, eu também quereria fugir.
            Essa situação toda me faz pensar nos debates acerca da redução da maioridade penal, que há um tempo está na boca do povo, dos meios de comunicação e de especialistas. Alguns argumentos, solidamente construídos a partir dos saberes da psicologia e das ciências sociais, deixam claro – pelo menos pra mim – a falta de sentido por trás da ideia de redução da maioridade penal. Elenco aqui 9 desses argumentos:
1) Sendo a adolescência um dos período de desenvolvimento da vida, seus desafios devem ser pensados a partir da perspectiva da educação;
2) O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê medidas socioeducativas para jovens infratores, considerando todas as peculiaridades dessa fase da vida. É importante não confundir inimputabilidade com impunidade (a “impunidade” é um dos principais argumentos a favor da redução): o ECA não propõe impunidade, mas sim prioriza medidas de educação à medidas punitivas;
3) Sendo a fixação da maioridade penal um fato social, cultural e histórico, é preciso explicitar a lógica por trás de seu discurso – que pode ser educacional ou punitiva. A Psicologia, como ciência e profissão, já deixou claro que a punição não é a melhor maneira de construir indivíduos sadios;
4) Sendo a violência um fenômeno que está intimamente ligado à desigualdade social e econômica, a redução da maioridade penal simplifica e reduz uma questão extremamente complexa;
5) É necessário revelar os mecanismos que produzem e mantêm a violência, através de ações políticas, sociais, educacionais e culturais;
6) Reduzir a maioridade penal é tratar o efeito, e não a causa;
7) A redução da maioridade penal isenta o Estado de criar políticas públicas que realmente deem conta da realidade da juventude brasileira;
8) As prisões brasileiras já estão superlotadas, com um déficit de 170 mil vagas em 2012;
9) O índice de reincidência no Brasil é de 70%, o que mostra a necessidade urgente de discutir a eficácia do encarceramento em nosso país.
            Depois de tomar conhecimento dessa situação insustentável e absurda em que funcionários torturam adolescentes num ambiente que deveria ser, acima de tudo, educacional (já que as medidas são sócio-educativas), creio ser possível propor, além do debate quanto à redução da maioridade penal, uma reflexão acerca da própria existência da Fundação Casa como instituição punitiva para nossos adolescentes. O que estamos querendo alcançar quando punimos nossos adolescentes? Vingança ou educação? Punição por punição ou conscientização? Inclusão ou exclusão?
Os adolescentes que enchem a Fundação Casa são os adolescentes marginalizados, vindos da periferia, pobres, jogados ao acaso por conta do descaso do Estado para com eles. São, como diz Enrique Martínez Reguera, adolescentes explorados: “Não delinquem e por isso são castigados, mas são explorados e por isso delinquem.” A construção da imagem do “delinquente juvenil” (não se enganem: é uma imagem construída com objetivos muito claros dentro da lógica econômica e da venda da segurança) é feita sob medida para o adolescente explorado. O estado de exploração insuportável ao qual esses jovens são submetidos na escola, na família, na sociedade em geral os coloca numa posição de vulnerabilidade e a formalização da sua condição de explorado em “delinquente” restringe qualquer possibilidade de florescer neles a “consciência” que tanto queremos que eles desenvolvam.
            Existe algo de muito errado na maneira que tratamos nossas crianças e adolescentes, especialmente os menos favorecidos economicamente. Eles crescem num ambiente hostil, não têm acesso a seus direitos mais básicos nem à atenção e afeto, cometem um crime, vão parar numa Fundação Casa onde serão catalogados e taxados de delinquentes juvenis, sofrem abusos e violências desumanas como essas divulgadas agora (que não são as primeiras e provavelmente não serão as últimas), decidem fugir e os culpados são eles. Ou seja, as condições sócio-econômicas e o descaso político propiciam que eles entrem para a “vida do crime”, mas são eles, única e exclusivamente, os culpados. Pagam por seus erros (já que a medida sócio-educativa é, muitas vezes, medida punitiva) e pelos erros de um Estado ausente. Martínez Reguera está mesmo certo: Como são injustos certos sujeitos privilegiados e a maioria das instituições de nossa sociedade.

[Texto publicado no site Causas Perdidas]

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