“Compreender era sempre um erro –
preferia a largueza tão ampla e livre
e sem erros que era não entender.
Era ruim, mas pelo menos se sabia que
se estava em plena condição humana”
(Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres)
preferia a largueza tão ampla e livre
e sem erros que era não entender.
Era ruim, mas pelo menos se sabia que
se estava em plena condição humana”
(Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres)
Em 09 de dezembro de 1977, um dia
antes de seu aniversário de 57 anos, Clarice Lispector faleceu devido a um
câncer de ovário que não sabia ter. A escritora ucraniana naturalizada
brasileira nos deixou sua memória, seus escritos e se eternizou como alguém
capaz de falar brilhantemente sobre a vida e a experiência humana. Sua obra,
que contempla histórias infantis, contos, crônicas e romances, é regada de uma
inigualável capacidade de traduzir o existir humano e minuciosamente
descrevê-lo com todas as flutuações entre suas alegrias e angústias.
É curioso pensar o que faz com que
alguns escritores sejam cultuados nas redes sociais e outros não. Que será que
têm, os primeiros, que faltam aos últimos? Não sou crítica literária e muito
menos tenho o conhecimento necessário para fazer esse diagnóstico de forma
precisa. Mas como alguém que se lembra exatamente da primeira vez em que leu
Clarice e que procura acompanhar tudo que diga respeito a ela, posso afirmar
que Clarice está no rol de escritores mais citados na rede. Apesar de ter
trechos de suas obras disseminados em todos os cantos, estes acabam por ser
tirados de contexto e reinterpretados de uma perspectiva muito distante daquela
que, na obra completa, ele tinha – o que é compreensível, uma vez que os livros
de Clarice são de uma profundidade desnorteadora e são, na maior parte do
tempo, uma viagem interna que chega a ignorar completamente o fato de que alguém
irá lê-los. Às vezes parece, inclusive, que para ela pouco importa se o que ela
fala faz algum sentido para seus leitores; é como se ela escrevesse para si
mesma – como ela mesma disse certa vez, escrevemos
porque queremos desabrochar, de um jeito ou de outro.
A questão aqui é que, ao retirarmos um
trecho de contexto, acabamos por fazer Clarice ser alguém que não é. Longe de
dizer que eu sei quem é Clarice (creio que nem ela mesma sabia exatamente, ou
melhor, buscou responder essa pergunta durante toda a sua vida) ou que a
Clarice da rede precisa necessariamente ser Clarice como eu a entendo, acho
importante ressaltar que a Clarice do facebook pouco se parece com a que
encontramos nos livros. Quem lê a Clarice-facebookiana
acredita se tratar de uma escritora superficial, quase juvenil, repleta de
frases de efeito sobre a alegria de viver ou a decepção do fim de um
relacionamento. Suas falas, que na verdade são atormentadas, se transformam em
belas palavras de amor como num passe de mágica. Sua perplexidade acerca da
vida passa a ser uma elucidação quando, na realidade, representa uma série de
indagações existenciais cujas respostas não são dadas nem por Clarice, nem por
ninguém. A angústia de não saber do futuro e viver na incerteza aparece como
algo belo e filosófico quando denota o desespero de saber da vida de forma tão
nua e crua.
Todos os personagens de Clarice
mostram bem como sua extrema sensibilidade para as questões humanas desemboca
numa narrativa confusa e de cunho existencial fortemente marcado pela angústia
de Ser. Joana, em “Perto do Coração Selvagem”, nos mostra pelo vai-e-vem entre
infância e vida adulta os momentos que marcam sua vida e como eles foram
importantes para que ela se tornasse quem se tornou. Em “A hora da estrela”,
apesar de um narrador que não é ela, Clarice se trai e aparece mesmo sem querer
aparecer, tão forte é sua necessidade de ser. Macabéa é a personificação do
Brasil e representa as angústias e tristezas de uma vida miserável. G.H., ao ir
de encontro à barata, vai de encontro a si mesma e revê toda sua vida. Lóri, em
“Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, aprende que para ser-com-os-outros,
precisa ser consigo mesma antes de tudo. São esses alguns dos temas tratados
por Clarice: a angústia de saber-se humano, a incerteza que é viver e, claro,
as felicidades e alegrias que encontramos nesse caminho tortuoso que é a vida. Não
são temas necessariamente alegres. Para ler Clarice é preciso saber, desde
cedo, que se estará entrando em um universo que irá afetar todas as esferas de
sua vida. Não é gostoso ler Clarice, nem “bonitinho”; é duro, sofrido e
angustiante, pois ela nos coloca em contato com todas as questões que nos
atormentam e que escolhemos não pensar sobre, partindo do erro que é achar que
não saber é melhor que saber. Como bem colocado em “Uma aprendizagem ou o livro
dos prazeres”, compreender é, sim, terrível. É, porém, menos terrível do que
não saber, pois nos dá a certeza mais importante para uma vida autêntica: somos
humanos...
Segue uma entrevista que Clarice
concedeu à TV Cultura que dá boas pistas de quem foi essa mulher fascinante: http://www.youtube.com/watch?v=ohHP1l2EVnU
[Texto publicado no site Causas Perdidas]
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