domingo, 4 de maio de 2014

Plantando boas ideias: professor cria jardim contra o racismo



Criatividade: a capacidade de produzir algo que seja, ao mesmo tempo, novo e adaptado ao contexto no qual se manifesta. A criatividade é um motor importante para o conhecimento, e quando aliada à boa vontade de alguém, pode dar belos frutos. É o caso do professor de biologia da Escola Municipal Herbert Moses, Zona Norte do Rio, Luiz Henrique Rosa e seu “jardim contra o racismo”.
Percebendo que os alunos utilizavam muitos apelidos racistas e agressivos na escola, ele resolveu, em 2009, fazer uma pesquisa e verificar quais os apelidos que os alunos já tinham ouvido na escola. Para sua surpresa, dos 400 apelidos anotados, 360 tinham cunho racista. Alarmado com a agressividade dos apelidos e com a falta de conhecimento dos alunos sobre a cultura negra e a escravidão, o professor criou o projeto “Qual é a graça?”: o objetivo do projeto é trazer para os alunos, de maneira inovadora, discussões acerca das revoltas de escravos que ocorreram no país, bem como explicitar a violência e a tortura cometidas contra os negros durante o período de escravidão. No muro do jardim abandonado da escola, os alunos escreveram os nomes de quase 200 escravos que participaram da Revolta de Vassouras, em 1838, com o intuito de que cada aluno “apadrinhasse” um escravo, possibilitando, assim, um debate sobre a questão da responsabilidade. Os alunos também cultivaram plantas ligadas à História do Brasil, como canela, noz-moscada e café, que tiveram papel essencial no desenrolar do projeto.
Para que os estudantes tivessem noção do tempo de viagem entre África e Brasil – tempo no qual os escravos sofriam abusos nos porões dos navios, Rosa plantou com eles couve e alface, cujos ciclos são de 90 dias, representando a distância entre Moçambique e Brasil; as viagens entre Angola e Brasil foram representadas pelo acompanhamento dos ciclos de pepinos e mostardas, que duram 60 dias. A fala de um aluno demonstra como o projeto teve seu objetivo alcançado: “Ele ainda tá amarrado, professor?”, perguntou ele, ao cuidar da planta, se referindo ao escravo que sofria nas embarcações. Infelizmente, mesmo com os resultados positivos do projeto na conscientização dos alunos, não houve qualquer tipo de interesse da Secretaria Municipal de Educação em apoia-lo financeiramente. Os mais de R$6.000,00 utilizados até hoje vem de doações de pais, professores, alunos e pessoas da comunidade.
Apesar de o projeto não valer como nota para a matéria, os alunos são incentivados a participar – e participam. Aretha, que aos 12 anos sofria com o preconceito dos apelidos racistas, agora se alegra ao contar que agora a chamam por seu nome. Parece uma pequena mudança, mas não é. Palavras não são só palavras... estão sempre carregadas de afetos, de história, de cultura. São as palavras que nomeiam nosso lugar no mundo, e é através delas que nos relacionamos com os outros, que nos colocamos como sujeitos da nossa própria história.
O preconceito é a face negativa do estereótipo. Estereótipo, por sua vez, é um esquema social próprio das relações humanas, em que a pessoa atribui características a grupos sociais a partir da generalização de observações individuais. Já o primeiro se dá quando o estereótipo é integrado por aspectos puramente negativos. O preconceito surge da tendência que temos de diferenciar o “eu” do “outro”, partindo do pressuposto de que o que parece comigo é bom, e o que é diferente é ruim. Como coloca Aroldo Rodrigues, a maneira que percebemos o outro é influenciada por nossas atitudes, interesses, estereótipos, preconceitos e esquemas sociais. Vemos o mundo através das distorções oriundas de nossas próprias idiossincrasias, por isso é tão importante que haja projetos como o “Qual é a graça?”, que possibilitam uma reorganização da maneira de ver o mundo, de forma a repensar as práticas preconceituosas que estão presentes na nossa maneira de se relacionar. Ao trazer a questão da responsabilidade e das implicações que as palavras têm no outro, o professor Rosa está fazendo um trabalho que não é de biologia ou de história somente, mas principalmente de formação humana, promovendo debates acerca da história de opressão dos negros no mundo e no Brasil, e despertando em seus alunos noções de respeito e justiça tão importantes para o exercício da cidadania.

[Texto publicado no site Causas Perdidas]

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