terça-feira, 18 de junho de 2013

"Jogaram mentos na geração coca-cola"

Hoje acordei com uma sensação de alegria inexplicável. Vivi para ver e fazer parte do dia em que o mundo inteiro, inclusive nós mesmos, veríamos o Brasil como um país que luta. Centenas de milhares de pessoas foram às ruas em todo o país, mostrando que a juventude da "geração coca-cola" não é tão alienada quanto se pensou até então. Acordamos, saímos da inércia. O que começou com protestos contra o aumento da passagem do transporte público se transformou na gota d'água para que saíssemos do facebook e fôssemos às ruas lutar pelos nossos direitos e cobrar dos políticos posicionamentos e mudanças. Mesmo quando era "só" pela passagem de ônibus, nunca foi "só pelos 0,20 centavos". Era sim por causa do aumento, considerando que 0,20 centavos fazem uma diferença gigante no fim do mês pra grande parte dos brasileiros que tem que viver com salários indignos. Mas era também - e principalmente - pelo fato de que aumenta a passagem e não melhora a qualidade; por causa dos acordos criminosos entre governos e grandes empresas que visam o lucro dos empresários muito mais do que o bem-estar da população; por causa da máfia em que estão envolvidas as companhias de ônibus em diversas cidades; pelo descaso para com o brasileiro trabalhador, que passa horas enlatado dentro de um ônibus precário. Continua sendo contra tudo isso que estamos lutando. Mas agora é muito mais: a manifestação do Movimento Passe Livre, somada à ação violenta, brutal e desmedida da polícia militar na última quinta feira, foi o estopim pra que todas as nossas insatisfações viessem à tona. Agora, protestamos contra a tarifa de ônibus, contra a corrupção, contra a violência policial, contra a negligência do Estado, a favor da transparência nos acordos entre governo e empresas privadas, contra a roubalheira nas licitações, contra o desvio de verba, contra a mídia que manipula, em favor da laicidade do país que anda tão ameaçada, contra a priorização de estádios em detrimento de educação e saúde. São muitas causas, muitas bandeiras, muitas lutas. Alguns dizem que isso faz com que não haja causa nenhuma e isso fará com que o movimento de dissipe, se perca. Eu, particularmente, não podia discordar mais: são muitas causas porque são muitas as insatisfações e porque perdemos muito tempo e só agora nos demos conta do poder que temos como povo. No fim das contas, a causa é uma: lutamos por um Brasil melhor.
A repercussão disso tudo é tão grande que um monte de gente que encheu a boca pra chamar os protestantes de "vagabundos" e "vândalos" agora apoia o movimento e comemora conosco esse momento. Arnaldo Jabor, que falou estupidamente sobre os protestos na semana passadas, dizendo que os manifestantes "não valiam nem 0,20 centavos", falou ontem de manhã na CBN que "errou", e afirmou que o engajamento dos jovens (os mesmo jovens que ele xingou dois dias antes de "filhinhos de papai de classe média que nem pegam ônibus") é importantíssimo e legítimo. Datena, que quebrou a cara em pesquisa ao vivo no programa perguntando "você é a favor de protestos de baderneiros?" quando viu que a maioria esmagadora das respostas era favorável ao movimento, se redimiu e disse que "prefere o povo à polícia". A mídia, que reprimiu veementemente os protestos, com manchetes sobre os "vândalos", ontem tomou todo o cuidado do mundo ao repetir duzentas vezes sobre "a minoria, muito pequena mesmo" de manifestantes que praticaram atos de vandalismo (mas, ainda assim, os jornais insistem em colocar nas manchetes essas minorias que não representam as outras milhares de pessoas - dentre as quais estão os estudantes que hoje foram limpar o centro do Rio de Janeiro que foi depredado ontem no fim da manifestação). Vários conservadores, os queridos e velhos conhecidos "reaças", estão aproveitando a repercussão pra tirar proveito da situação e parecer que lutam pelas mesmas causas que o movimento. Isso tudo só prova que o movimento é forte e estamos fazendo barulho - barulho necessário para mostrar que estamos atentos e queremos mudanças.

Tenho excelentes pressentimentos acerca do que vai acontecer daqui pra frente no país. Pode ser que as tarifas de ônibus diminuam e depois subam novamente; pode ser que em alguns lugares elas continuem as mesmas. Caso isso aconteça, vamos continuar lutando. Mas acima de tudo isso, provamos ao mundo e principalmente aos governantes que da mesma forma que fomos nós quem os colocamos lá, somos nós quem vamos tirá-los do poder se eles não forem representantes das vontades do povo. Essa é uma vitória que não tem como ser apagada. Isso vai entrar pra história, e o orgulho de poder dizer "eu fiz parte disso" é tão grande que me enche os olhos d'água e me dá vontade de gritar pros quatro cantos do mundo isso que sempre senti a agora se fortalece a cada notícia que leio, a cada post no facebook, a cada foto que vejo: eu sou brasileira com muito orgulho.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Reflexões sobre os protestos contra o aumento da passagem em São Paulo.

Os protestos contra o aumento da passagem em São Paulo trazem vários temas para debate. Primeiro, o valor abusivo da tarifa do transporte público no Brasil. Conforme publicou o jornal El País no último dia 12, gastos com transporte no país chegam a mais R$200,00, numa realidade em que um salário mínimo é de R$678,00. A luta dos manifestantes do chamado Movimento Passe Livre - nome que tem mais a ver com um ideal de sociedade livre (não é livre que não pode ir e vir por não ter como pagar a passagem do ônibus) do que propriamente com a redução a zero das tarifas de transportes - é justa, digna e tem como objetivo construir no Brasil um sistema de transporte público de qualidade e com um preço que seja condizente com o serviço prestado e com a realidade social do país. Segundo, a maneira com que a mídia tem tratado esses acontecimentos: os manifestantes passam a ser vândalos, vagabundos que estão fazendo baderna "só por 0,20 centavos". Isso não é sobre 0,20 centavos. Isso é sobre direitos, sobre cidadania e sobre justiça social. Uma minoria dos manifestantes que agiu de maneira violenta está agora representando um movimento inteiro, cuja maioria esmagadora vai às ruas pacificamente. Isso não é, como muitos podem dizer, argumento "desses loucos cheios de tramas conspiratórias contra a mídia". Isso é fato. O Globo Mundo chama de "manifestantes" na França o que chamam, no Brasil, de "vândalos". Não é uma mera troca de palavras. Felizmente, tenho visto outros meios de comunicação que não a Globo retratarem de maneira mais coerente os acontecimentos da semana em São Paulo e em outras cidades como Rio de Janeiro e Porto Alegre, mas ainda é forte a deturpação dos fatos. Terceiro, a ação desmedida e de violência fora do comum da Polícia contra os manifestantes. Estamos assistindo à criminalização dos movimentos sociais e isso é perigoso para a democracia: pessoas foram presas por portar vinagre. O vinagre é usado para diminuir os efeitos do gás lacrimogêneo. A justificativa para prender essas pessoas é que o vinagre pode ser usado na fabricação de bombas. Se não fosse trágico, seria engraçado. Estranho não é ter vinagre numa manifestação. Estranho é ter que levar vinagre para se defender de uma polícia que deveria proteger, e não atacar. Estão presos também grupos acusados de formação de quadrilha. Outros, porque tinham lenços em suas bolsas. Vídeos mostram policiais quebrando os vidros da própria viatura, policiais atirando em um manifestante que dançava, policiais usando balas de borracha contra pessoas que nem estavam participando da manifestação. Jornalistas foram atacados e presos. Um grupo que gritava "sem violência, sem violência" foi vítima de um ataque arbitrário da tropa de choque da polícia. Ninguém é a favor da violência: os meios não justificam os fins. Por esse mesmo motivo, a ação da polícia é absolutamente injustificável, e é ainda mais condenável que a dos poucos manifestantes que se mostraram violentos: ela é legimitada e ordenada pelo Estado. O que me leva ao quarto tema, a podridão cada vez mais aparente do governador de São Paulo Geraldo Alckmin, que comanda e aceita a ação violenta da polícia e já disse mais de uma vez que "não vai recuar" e "não está aberto a diálogo". Se o governador não está aberto a diálogo, o que resta à população, senão ir pras ruas e lutar pelos seus direitos? Se esses direitos são negados desde o seu nível mais básico, como pode se dizer que os bandidos são os que protestam, e não o Estado que negligencia?

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Faroeste Caboclo e o Brasil marginalizado.

Saio do cinema nessa quarta-feira, na sessão das 18:40h e em véspera de prova de fim de semestre meio aérea. Assisti Faroeste Caboclo, e é difícil tirar a cabeça da história e voltar pra vida. Lembro que quando era mais nova, eu e meu irmão colocávamos o cd do Legião Urbana no carro da minha mãe e tentávamos decorar a letra da música; confesso que até hoje ainda não consegui fazê-lo por completo. Mas mesmo sem saber todas as palavras, a mensagem que elas passam é clara - e retratam as histórias dos tantos Joãos que vivem Brasil afora.
Longe de querer fazer uma crítica do filme, meu objetivo é deixar registrado que essa bela obra do cinema nacional é tocante e muito bem feita. A cada referência sutil que o filme faz à música, lágrimas brotam nos olhos sem que sequer percebamos. Isso porque João de Santo Cristo, por ser a cara de milhões de brasileiros negros, pobres e marginalizados que, sem medo, enfrentam a vida da melhor maneira possível e sem entender muito bem como essa tal vida funciona, fala diretamente à todos nós que estamos sentados na sala de cinema e nos obriga a pensar (e repensar) sobre a vida, a injustiça, a desigualdade social, o racismo, as dificuldades e o amor - tudo isso enquanto, mentalmente, cantarolamos a música de Renato Russo.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Ser louco é estar entre a vida e a morte...

Vez ou outra temos o privilégio de ler textos que despertam em nós uma vontade de mover-se, revoltar-se, de dizer pros quatro cantos do mundo como nos sentimos. É o caso do texto de Eliane Brum, "Os loucos, os normais e o Estado", publicado hoje no site da revista Época (http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2013/06/os-loucos-os-normais-e-o-estado.html). A reportagem trata do livro "Holocausto Brasileiro - vida, genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil", de Daniela Arbex. No livro, a autora traz histórias das pessoas que, durante muito tempo, foram jogadas, trancafiadas e esquecidas na Colônia, o famoso hospital psiquiátrico de Barbacena.
A ideia de que a loucura é perigosa não vem de hoje. Há séculos a sociedade, a partir de uma eleição arbitrária do que é normal ou patológico, prefere tirar das vistas tudo aquilo que a incomoda. Esses que são, então, enquadrados no "diagnóstico" de loucos, não são considerados pessoas - e esse estatuto de não-pessoa é o que legimita toda a violência contra eles aplicada. Suas vidas são apagadas, seus discursos, ignorados, suas dores, suprimidas pela ideia de que nada têm a acrescentar e portanto não precisam ser ouvidos. Mesmo vivos, estão mortos.
Os relatos que Eliane Brum traz no texto, tirados não do livro de Daniela Arbex, mas das vidas desses indivíduos cujas existências foram por tanto tempo negligenciadas, nos mostram um verdadeiro circo de horrores banhado a eletrochoques, torturas, condições degradantes e invisibilidade social. É o caso de Antonio Gomes da Silva, que passou 21 anos internado no hospício; durante esse tempo, nenhum médico ou funcionário falou com ele e, assim, ele foi considerado mudo. 21 anos sem trocar palavra, carinho ou atenção. 21 anos vivendo como um vegetal - sequer vivendo: sobrevivendo em um ambiente hostil onde foi enfiado à força.
É importante perceber que situações como essa, em que chegou-se ao ponto de morrerem 16 pessoas por dia, acontecem porque existe um aval da sociedade e do Estado para que elas aconteçam. Não são ocorrências que nada têm a ver conosco. Pelo contrário, são um retrato de como nós - a sociedade - compreendemos nossos problemas e nossas dificuldades. E o mais importante é ter consciência de que esse não é o passado sórdido do nosso Brasil: essa ainda é a realidade para muitas pessoas que, por um motivo ou por outro, foram consideradas incapazes de conviver em sociedade.
Comecei dizendo sobre a vontade de falar sobre essa revolta que sinto ao me deparar com todas essas injustiças. A mim, pelo menos, me é dada a possibilidade de falar. Já a essas pessoas, que sofrem diretamente as consequências do holocausto manicomial... a elas, não.