Texto em parceria com Luiz Antonio Ribeiro
Pode ser que seja uma idiossincrasia pessoal, mas uma das maiores e
melhores sensações é a de sair sem rumo, se perder pela cidade, ganhar mundo,
ultrapassar fronteiras com o sentimento de que a cada limite que se ultrapassa
é um pouco mais de liberdade que se ganha. No entanto, se depender de alguns
desenvolvedores de software, isso pode estar com os dias contados. O aplicativo
lançado para telefones Android possibilita que um celular cadastre um número
telefônico que queira rastrear e acompanhe toda a atividade do outro aparelho.
Como se isso fosse pouco, além de dar a localização do aparelho, ele também dá
acesso ao conteúdo e destinatário de sms e faz uma chamada que permite ouvir o
som do ambiente em que está o outro telefone.
Se antigamente os ciumentos de
plantão contratavam detetives particulares para deixa-los a par de todos os
passos de seus amados, esse aplicativo permite que cada um seja seu próprio
detetive particular. O app se chama “Rastreador de Namorado” e, como o próprio
slogan diz, serve para que você rastreie seu namorado caso ache que ele está “aprontando”.
Entretanto, não se pode chegar a conclusões precipitadas sobre o aplicativo em
si, demonizando-o, sem levar em conta que ele foi criado justamente pela alta
demanda das pessoas em saber dos detalhes da vida e da rotina daqueles com quem
se relacionam. Até a Justiça tem apontado as controvérsias acerca do caso:
embora ela afirme que não há ilegalidade na existência do aplicativo, seu uso
sem consentimento pode configurar crime contra a privacidade, dentro das
especificidades da “Lei Carolina Dieckman”, em vigor desde abril de 2013,
passível de uma pena que vai desde multa até reclusão de quatro anos.
Devido à polêmica causada pelo
aplicativo, a Google resolveu remove-lo de sua loja pela segunda vez, alegando
que seu intuito não condizia com os termos de uso da empresa. Porém, o fato de
o aplicativo não estar mais disponível para download não significa que não
possa haver diversas reflexões acerca do tema. O menos relevante de toda essa
situação é dizer se o aplicativo fere ou não a lei. Muito mais importante que
isso é pensar o que ele significa como reflexo de uma prática social que já
existe e é profundamente incentivada, defendida e debatida nas mais diversas
esferas da sociedade. A primeira questão que se levanta está contida no próprio
nome do aplicativo – rastreador de namorado – que traz junto consigo a ideia
machista de que seria papel exclusivo da mulher ficar em uma posição passiva
enquanto o homem sai por aí, além de colocar a mulher como um ser neurótico,
ciumento, possessivo. O problema é que essa lógica é difundida diariamente na
mídia, nas novelas, nas comédias românticas e histórias de princesas, e o
aplicativo é somente mais um desses veículos. Ataca-lo é atacar o sintoma e não
a doença. Uma outra questão importante de se observar é que os relacionamentos,
quase em sua totalidade, se dão dentro de uma lógica ainda patriarcal e
patrimonialista regida pela posse e pelo controle, ou seja, aquilo que o outro
faz e até o que ele pensa deve necessariamente ser compatível com o que ou foi
acordado entre os parceiros e qualquer desvio desse “pacto” configura traição,
desrespeito, mentira. Mais que isso, o outro passa a ser um inimigo, alguém
que, se não estiver sob controle, pode (e quer) a todo momento quebrar esse
acordo.
Todos esses elementos que claramente ferem a autonomia e o direito a
privacidade, impedindo, inclusive, que a pessoa tenha o que se poderia chamar
de vida própria, são resultados da supervalorização dos relacionamentos em que
se entra numa espécie de temporalidade cíclica e vazia, com poucas projeções e
muitos objetivos de curtíssimo prazo.
Não espantaria, a respeito do aplicativo, que alguém dissesse que não vê
mal nenhum no aplicativo uma vez que não houve nenhuma proibição, a pessoa foi
exatamente aonde ela queria ir; somente está compartilhando comigo onde está, o
que está fazendo e com quem está falando. Afinal, um casal não pode ter
segredos, não é? O que parece paranoia, muitos chamam de namoro. O que parece
cumplicidade, nada mais é que uma coleira digital.
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