domingo, 4 de maio de 2014

Aplicativo “Rastreador de Namorado”, uma coleira digital?

Texto em parceria com Luiz Antonio Ribeiro

Pode ser que seja uma idiossincrasia pessoal, mas uma das maiores e melhores sensações é a de sair sem rumo, se perder pela cidade, ganhar mundo, ultrapassar fronteiras com o sentimento de que a cada limite que se ultrapassa é um pouco mais de liberdade que se ganha. No entanto, se depender de alguns desenvolvedores de software, isso pode estar com os dias contados. O aplicativo lançado para telefones Android possibilita que um celular cadastre um número telefônico que queira rastrear e acompanhe toda a atividade do outro aparelho. Como se isso fosse pouco, além de dar a localização do aparelho, ele também dá acesso ao conteúdo e destinatário de sms e faz uma chamada que permite ouvir o som do ambiente em que está o outro telefone.
            Se antigamente os ciumentos de plantão contratavam detetives particulares para deixa-los a par de todos os passos de seus amados, esse aplicativo permite que cada um seja seu próprio detetive particular. O app se chama “Rastreador de Namorado” e, como o próprio slogan diz, serve para que você rastreie seu namorado caso ache que ele está “aprontando”. Entretanto, não se pode chegar a conclusões precipitadas sobre o aplicativo em si, demonizando-o, sem levar em conta que ele foi criado justamente pela alta demanda das pessoas em saber dos detalhes da vida e da rotina daqueles com quem se relacionam. Até a Justiça tem apontado as controvérsias acerca do caso: embora ela afirme que não há ilegalidade na existência do aplicativo, seu uso sem consentimento pode configurar crime contra a privacidade, dentro das especificidades da “Lei Carolina Dieckman”, em vigor desde abril de 2013, passível de uma pena que vai desde multa até reclusão de quatro anos.
            Devido à polêmica causada pelo aplicativo, a Google resolveu remove-lo de sua loja pela segunda vez, alegando que seu intuito não condizia com os termos de uso da empresa. Porém, o fato de o aplicativo não estar mais disponível para download não significa que não possa haver diversas reflexões acerca do tema. O menos relevante de toda essa situação é dizer se o aplicativo fere ou não a lei. Muito mais importante que isso é pensar o que ele significa como reflexo de uma prática social que já existe e é profundamente incentivada, defendida e debatida nas mais diversas esferas da sociedade. A primeira questão que se levanta está contida no próprio nome do aplicativo – rastreador de namorado – que traz junto consigo a ideia machista de que seria papel exclusivo da mulher ficar em uma posição passiva enquanto o homem sai por aí, além de colocar a mulher como um ser neurótico, ciumento, possessivo. O problema é que essa lógica é difundida diariamente na mídia, nas novelas, nas comédias românticas e histórias de princesas, e o aplicativo é somente mais um desses veículos. Ataca-lo é atacar o sintoma e não a doença. Uma outra questão importante de se observar é que os relacionamentos, quase em sua totalidade, se dão dentro de uma lógica ainda patriarcal e patrimonialista regida pela posse e pelo controle, ou seja, aquilo que o outro faz e até o que ele pensa deve necessariamente ser compatível com o que ou foi acordado entre os parceiros e qualquer desvio desse “pacto” configura traição, desrespeito, mentira. Mais que isso, o outro passa a ser um inimigo, alguém que, se não estiver sob controle, pode (e quer) a todo momento quebrar esse acordo.
Todos esses elementos que claramente ferem a autonomia e o direito a privacidade, impedindo, inclusive, que a pessoa tenha o que se poderia chamar de vida própria, são resultados da supervalorização dos relacionamentos em que se entra numa espécie de temporalidade cíclica e vazia, com poucas projeções e muitos objetivos de curtíssimo prazo.
Não espantaria, a respeito do aplicativo, que alguém dissesse que não vê mal nenhum no aplicativo uma vez que não houve nenhuma proibição, a pessoa foi exatamente aonde ela queria ir; somente está compartilhando comigo onde está, o que está fazendo e com quem está falando. Afinal, um casal não pode ter segredos, não é? O que parece paranoia, muitos chamam de namoro. O que parece cumplicidade, nada mais é que uma coleira digital.
        
 [Texto publicado no site Causas Perdidas]

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