segunda-feira, 22 de julho de 2013

20 anos da Chacina da Candelária: Recordar é resistir!


Rio de Janeiro, Julho de 2013. A PM reprime as manifestações no Palácio Guanabara com fuzis, armas de choque e gás lacrimogêneo com data de validade vencida. Dois repórteres da Mídia NINJA são presos por estarem transmitindo ao vivo na PósTv as manifestações; Amarildo, pedreiro, pai de 6 filhos, morador da favela, desaparece na Rocinha depois de ter sido levado pela polícia da UPP até a base do morro. No twitter oficial da PMERJ, lê-se que a ação da OAB atrapalha a ação policial e que os ninjas presos foram detidos por incitar a violência ao filmar e transmitir a manifestação. No Leblon, manifestantes protestam em frente a casa do governador Sérgio Cabral, vidraças são quebradas e a grande mídia, mais uma vez, tenta desesperadamente retratar os manifestantes como vândalos, televisionando a tristeza dos donos das lojas cujos vidros foram estraçalhados; enquanto isso, nada se fala sobre os abusos de poder do BOPE no Complexo da Maré. A periferia sofre com a violência institucional de todo dia. "Na favela, as balas não são de borracha."

Rio de Janeiro, Julho de 1993. Mais de 50 jovens dormiam nas escadas da Igreja da Candelária. Oito deles, dentre os quais estavam 6 menores de idade, foram assassinados: policiais militares abriram fogo contra as crianças e adolescentes que estavam dormindo, matando 4 no local, 1 enquanto tentava fugir, 2 executados no Aterro do Flamengo e 1 em decorrência dos ferimentos. Três PMs foram condenados pela chacina, e hoje estão livres. Outros seis foram absolvidos, apesar das evidências que os ligavam aos assassinatos. Quanto aos sobreviventes, esses são poucos, e suas histórias são marcadas pela injustiça, pela impunidade e pela violência policial. Wagner dos Santos sofreu uma segunda tentativa de assassinato em 1994, e vive sob proteção do Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas, com problemas de audição, perda parcial dos movimentos faciais e envenenamento por chumbo, decorrente dos oito tiros que tomou na Candelária, além de incontáveis sequelas psicológicas. Em uma operação contra o tráfico de drogas, Fabio Gomes de Azevedo foi assassinado pela Polícia em 1996. Sandro Barbosa do Nascimento perdeu a vida no ano 2000 durante o conhecido assalto ao ônibus 174. Elizabeth Cristina de Oliveira Maia foi morta também em 2000, pouco antes de depor contra policiais num processo judicial.

20 anos separam esses dois momentos históricos, e o cenário parece o mesmo: violência, repressão, manipulação, violação de direitos humanos, impunidade, perseguição da população negra, pobre e periférica, crueldade. Ainda assim, os governantes parecem insistir em reforçar a ação policial, se aproveitando do medo para legitimar ações violentas contra minorias.
A Chacina da Candelária não pode ser esquecida, e a conivência com a violência policial, mais que isso, a escolha por parte dos governantes de gerir uma polícia violenta em nome de uma determinada ordem social - ordem essa que se baseia na lógica da higiene social, precisa acabar. Escrevo esse post em homenagem a Paulo Roberto de Oliveira (11 anos), Anderson de Oliveira Pereira (13 anos), Marcelo Cândido de Jesus (14 anos), Valdevino Miguel de Almeida (14 anos), "Gambazinho" (17 anos), Leandro Santos da Conceição (17 anos), Paulo José da Silva (18 anos) e Marcos Antônio Alves da Silva (19 anos), covardemente assassinados nesse 23 de Julho de 1993, e a todos os que (sobre)vivem nessa corda bamba, entre a vida e a morte, por nenhum motivo maior do que aquilo que a muitos de nós é dado de bandeja: existir.

Gritamos por justiça ao mesmo tempo que clamamos por segurança, sem sequer perceber que em nome da segurança cometemos injustiças sem igual. 

terça-feira, 16 de julho de 2013

Advogada do diabo.

E quando a gente acha que as coisas não podem piorar, eis que surge uma matéria na Folha de S. Paulo sobre a psicóloga que dá cursos para mulheres que desejam "atrair um partidão". Ela cobra entre R$1.000 e R$12.000 pelos seus serviços - que são mais um des-serviço do que qualquer outra coisa. Seu curso começa com uma imagem que remonta às manifestações feministas em que as manifestantes queimam sutiãs, dizendo que é necessário ser tolerante e feminina se quisermos manter relacionamentos duradouros. Sim, ela acha o Feminismo intolerante e repudia o Movimento e todas as suas conquistas na luta por equidade de direitos para as mulheres; certamente ela não está preocupada com direitos, uma vez que vê as mulheres como "caçadoras de partidões. A digníssima chega ao absurdo de afirmar que, durante um jantar, não se pode comer muito, nem falar sobre trabalho (isso é coisa de homem). Mas não é só isso: não é recomendado falar diretamente com o garçom. Falando com o garçom, demonstramos ser "independentes demais", coisa que deve ser evitada, já que, para ela, mulher não é agente de sua própria história, e sim submissa aos "partidões". 
Além de machista, a "psicóloga" diz que costuma rejeitar gordos em sua agência (!!!!) - afinal, 50% das pessoas não querem parceiros acima do peso (os dados devem vir diretamente da Agência de Pesquisa Mais Preconceituosa Do Mundo). Então, para garantir seu partidão (o sonho de toda mulher), você deve ser magra, submissa, não falar do seu trabalho, ser tolerante... ah, sim, tem mais coisas: é preciso estar sempre maquiada ("cara limpa é desleixo", para ela) e usar salto alto - até na piscina e praia é preciso andar da ponta dos pés, para chamar a atenção e disfarçar as gordurinhas e celulites. E, é claro, não é permitido transar no primeiro encontro.
Como podemos ver, ela é contra a autonomia das mulheres, a favor da manutenção do ideal de beleza vigente, excluindo a possibilidade de felicidade para todas aquelas que não se enquadrarem nele, é reforçadora do modelo machista de relacionamentos em que as mulheres vivem em função de um homem que a sustente e proteja, já que ela é incapaz de cuidar de si e de sustentar, prega um discurso pudico e ultrapassado de que o desejo sexual da mulher está submetido ao do homem e ela deve manter a imagem de "santa". E ainda é psicóloga! Estudou 5 anos sobre a necessidade urgente de quebrar esses paradigmas patriarcais e sexistas, mas tem como objetivo de vida reforçá-los e ganhar dinheiro com ele.

Isso é absurdo, e não podemos esquecer: a pior coisa que pode acontecer é o oprimido trabalhar a favor do opressor.

terça-feira, 18 de junho de 2013

"Jogaram mentos na geração coca-cola"

Hoje acordei com uma sensação de alegria inexplicável. Vivi para ver e fazer parte do dia em que o mundo inteiro, inclusive nós mesmos, veríamos o Brasil como um país que luta. Centenas de milhares de pessoas foram às ruas em todo o país, mostrando que a juventude da "geração coca-cola" não é tão alienada quanto se pensou até então. Acordamos, saímos da inércia. O que começou com protestos contra o aumento da passagem do transporte público se transformou na gota d'água para que saíssemos do facebook e fôssemos às ruas lutar pelos nossos direitos e cobrar dos políticos posicionamentos e mudanças. Mesmo quando era "só" pela passagem de ônibus, nunca foi "só pelos 0,20 centavos". Era sim por causa do aumento, considerando que 0,20 centavos fazem uma diferença gigante no fim do mês pra grande parte dos brasileiros que tem que viver com salários indignos. Mas era também - e principalmente - pelo fato de que aumenta a passagem e não melhora a qualidade; por causa dos acordos criminosos entre governos e grandes empresas que visam o lucro dos empresários muito mais do que o bem-estar da população; por causa da máfia em que estão envolvidas as companhias de ônibus em diversas cidades; pelo descaso para com o brasileiro trabalhador, que passa horas enlatado dentro de um ônibus precário. Continua sendo contra tudo isso que estamos lutando. Mas agora é muito mais: a manifestação do Movimento Passe Livre, somada à ação violenta, brutal e desmedida da polícia militar na última quinta feira, foi o estopim pra que todas as nossas insatisfações viessem à tona. Agora, protestamos contra a tarifa de ônibus, contra a corrupção, contra a violência policial, contra a negligência do Estado, a favor da transparência nos acordos entre governo e empresas privadas, contra a roubalheira nas licitações, contra o desvio de verba, contra a mídia que manipula, em favor da laicidade do país que anda tão ameaçada, contra a priorização de estádios em detrimento de educação e saúde. São muitas causas, muitas bandeiras, muitas lutas. Alguns dizem que isso faz com que não haja causa nenhuma e isso fará com que o movimento de dissipe, se perca. Eu, particularmente, não podia discordar mais: são muitas causas porque são muitas as insatisfações e porque perdemos muito tempo e só agora nos demos conta do poder que temos como povo. No fim das contas, a causa é uma: lutamos por um Brasil melhor.
A repercussão disso tudo é tão grande que um monte de gente que encheu a boca pra chamar os protestantes de "vagabundos" e "vândalos" agora apoia o movimento e comemora conosco esse momento. Arnaldo Jabor, que falou estupidamente sobre os protestos na semana passadas, dizendo que os manifestantes "não valiam nem 0,20 centavos", falou ontem de manhã na CBN que "errou", e afirmou que o engajamento dos jovens (os mesmo jovens que ele xingou dois dias antes de "filhinhos de papai de classe média que nem pegam ônibus") é importantíssimo e legítimo. Datena, que quebrou a cara em pesquisa ao vivo no programa perguntando "você é a favor de protestos de baderneiros?" quando viu que a maioria esmagadora das respostas era favorável ao movimento, se redimiu e disse que "prefere o povo à polícia". A mídia, que reprimiu veementemente os protestos, com manchetes sobre os "vândalos", ontem tomou todo o cuidado do mundo ao repetir duzentas vezes sobre "a minoria, muito pequena mesmo" de manifestantes que praticaram atos de vandalismo (mas, ainda assim, os jornais insistem em colocar nas manchetes essas minorias que não representam as outras milhares de pessoas - dentre as quais estão os estudantes que hoje foram limpar o centro do Rio de Janeiro que foi depredado ontem no fim da manifestação). Vários conservadores, os queridos e velhos conhecidos "reaças", estão aproveitando a repercussão pra tirar proveito da situação e parecer que lutam pelas mesmas causas que o movimento. Isso tudo só prova que o movimento é forte e estamos fazendo barulho - barulho necessário para mostrar que estamos atentos e queremos mudanças.

Tenho excelentes pressentimentos acerca do que vai acontecer daqui pra frente no país. Pode ser que as tarifas de ônibus diminuam e depois subam novamente; pode ser que em alguns lugares elas continuem as mesmas. Caso isso aconteça, vamos continuar lutando. Mas acima de tudo isso, provamos ao mundo e principalmente aos governantes que da mesma forma que fomos nós quem os colocamos lá, somos nós quem vamos tirá-los do poder se eles não forem representantes das vontades do povo. Essa é uma vitória que não tem como ser apagada. Isso vai entrar pra história, e o orgulho de poder dizer "eu fiz parte disso" é tão grande que me enche os olhos d'água e me dá vontade de gritar pros quatro cantos do mundo isso que sempre senti a agora se fortalece a cada notícia que leio, a cada post no facebook, a cada foto que vejo: eu sou brasileira com muito orgulho.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Reflexões sobre os protestos contra o aumento da passagem em São Paulo.

Os protestos contra o aumento da passagem em São Paulo trazem vários temas para debate. Primeiro, o valor abusivo da tarifa do transporte público no Brasil. Conforme publicou o jornal El País no último dia 12, gastos com transporte no país chegam a mais R$200,00, numa realidade em que um salário mínimo é de R$678,00. A luta dos manifestantes do chamado Movimento Passe Livre - nome que tem mais a ver com um ideal de sociedade livre (não é livre que não pode ir e vir por não ter como pagar a passagem do ônibus) do que propriamente com a redução a zero das tarifas de transportes - é justa, digna e tem como objetivo construir no Brasil um sistema de transporte público de qualidade e com um preço que seja condizente com o serviço prestado e com a realidade social do país. Segundo, a maneira com que a mídia tem tratado esses acontecimentos: os manifestantes passam a ser vândalos, vagabundos que estão fazendo baderna "só por 0,20 centavos". Isso não é sobre 0,20 centavos. Isso é sobre direitos, sobre cidadania e sobre justiça social. Uma minoria dos manifestantes que agiu de maneira violenta está agora representando um movimento inteiro, cuja maioria esmagadora vai às ruas pacificamente. Isso não é, como muitos podem dizer, argumento "desses loucos cheios de tramas conspiratórias contra a mídia". Isso é fato. O Globo Mundo chama de "manifestantes" na França o que chamam, no Brasil, de "vândalos". Não é uma mera troca de palavras. Felizmente, tenho visto outros meios de comunicação que não a Globo retratarem de maneira mais coerente os acontecimentos da semana em São Paulo e em outras cidades como Rio de Janeiro e Porto Alegre, mas ainda é forte a deturpação dos fatos. Terceiro, a ação desmedida e de violência fora do comum da Polícia contra os manifestantes. Estamos assistindo à criminalização dos movimentos sociais e isso é perigoso para a democracia: pessoas foram presas por portar vinagre. O vinagre é usado para diminuir os efeitos do gás lacrimogêneo. A justificativa para prender essas pessoas é que o vinagre pode ser usado na fabricação de bombas. Se não fosse trágico, seria engraçado. Estranho não é ter vinagre numa manifestação. Estranho é ter que levar vinagre para se defender de uma polícia que deveria proteger, e não atacar. Estão presos também grupos acusados de formação de quadrilha. Outros, porque tinham lenços em suas bolsas. Vídeos mostram policiais quebrando os vidros da própria viatura, policiais atirando em um manifestante que dançava, policiais usando balas de borracha contra pessoas que nem estavam participando da manifestação. Jornalistas foram atacados e presos. Um grupo que gritava "sem violência, sem violência" foi vítima de um ataque arbitrário da tropa de choque da polícia. Ninguém é a favor da violência: os meios não justificam os fins. Por esse mesmo motivo, a ação da polícia é absolutamente injustificável, e é ainda mais condenável que a dos poucos manifestantes que se mostraram violentos: ela é legimitada e ordenada pelo Estado. O que me leva ao quarto tema, a podridão cada vez mais aparente do governador de São Paulo Geraldo Alckmin, que comanda e aceita a ação violenta da polícia e já disse mais de uma vez que "não vai recuar" e "não está aberto a diálogo". Se o governador não está aberto a diálogo, o que resta à população, senão ir pras ruas e lutar pelos seus direitos? Se esses direitos são negados desde o seu nível mais básico, como pode se dizer que os bandidos são os que protestam, e não o Estado que negligencia?

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Faroeste Caboclo e o Brasil marginalizado.

Saio do cinema nessa quarta-feira, na sessão das 18:40h e em véspera de prova de fim de semestre meio aérea. Assisti Faroeste Caboclo, e é difícil tirar a cabeça da história e voltar pra vida. Lembro que quando era mais nova, eu e meu irmão colocávamos o cd do Legião Urbana no carro da minha mãe e tentávamos decorar a letra da música; confesso que até hoje ainda não consegui fazê-lo por completo. Mas mesmo sem saber todas as palavras, a mensagem que elas passam é clara - e retratam as histórias dos tantos Joãos que vivem Brasil afora.
Longe de querer fazer uma crítica do filme, meu objetivo é deixar registrado que essa bela obra do cinema nacional é tocante e muito bem feita. A cada referência sutil que o filme faz à música, lágrimas brotam nos olhos sem que sequer percebamos. Isso porque João de Santo Cristo, por ser a cara de milhões de brasileiros negros, pobres e marginalizados que, sem medo, enfrentam a vida da melhor maneira possível e sem entender muito bem como essa tal vida funciona, fala diretamente à todos nós que estamos sentados na sala de cinema e nos obriga a pensar (e repensar) sobre a vida, a injustiça, a desigualdade social, o racismo, as dificuldades e o amor - tudo isso enquanto, mentalmente, cantarolamos a música de Renato Russo.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Ser louco é estar entre a vida e a morte...

Vez ou outra temos o privilégio de ler textos que despertam em nós uma vontade de mover-se, revoltar-se, de dizer pros quatro cantos do mundo como nos sentimos. É o caso do texto de Eliane Brum, "Os loucos, os normais e o Estado", publicado hoje no site da revista Época (http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2013/06/os-loucos-os-normais-e-o-estado.html). A reportagem trata do livro "Holocausto Brasileiro - vida, genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil", de Daniela Arbex. No livro, a autora traz histórias das pessoas que, durante muito tempo, foram jogadas, trancafiadas e esquecidas na Colônia, o famoso hospital psiquiátrico de Barbacena.
A ideia de que a loucura é perigosa não vem de hoje. Há séculos a sociedade, a partir de uma eleição arbitrária do que é normal ou patológico, prefere tirar das vistas tudo aquilo que a incomoda. Esses que são, então, enquadrados no "diagnóstico" de loucos, não são considerados pessoas - e esse estatuto de não-pessoa é o que legimita toda a violência contra eles aplicada. Suas vidas são apagadas, seus discursos, ignorados, suas dores, suprimidas pela ideia de que nada têm a acrescentar e portanto não precisam ser ouvidos. Mesmo vivos, estão mortos.
Os relatos que Eliane Brum traz no texto, tirados não do livro de Daniela Arbex, mas das vidas desses indivíduos cujas existências foram por tanto tempo negligenciadas, nos mostram um verdadeiro circo de horrores banhado a eletrochoques, torturas, condições degradantes e invisibilidade social. É o caso de Antonio Gomes da Silva, que passou 21 anos internado no hospício; durante esse tempo, nenhum médico ou funcionário falou com ele e, assim, ele foi considerado mudo. 21 anos sem trocar palavra, carinho ou atenção. 21 anos vivendo como um vegetal - sequer vivendo: sobrevivendo em um ambiente hostil onde foi enfiado à força.
É importante perceber que situações como essa, em que chegou-se ao ponto de morrerem 16 pessoas por dia, acontecem porque existe um aval da sociedade e do Estado para que elas aconteçam. Não são ocorrências que nada têm a ver conosco. Pelo contrário, são um retrato de como nós - a sociedade - compreendemos nossos problemas e nossas dificuldades. E o mais importante é ter consciência de que esse não é o passado sórdido do nosso Brasil: essa ainda é a realidade para muitas pessoas que, por um motivo ou por outro, foram consideradas incapazes de conviver em sociedade.
Comecei dizendo sobre a vontade de falar sobre essa revolta que sinto ao me deparar com todas essas injustiças. A mim, pelo menos, me é dada a possibilidade de falar. Já a essas pessoas, que sofrem diretamente as consequências do holocausto manicomial... a elas, não.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O papel social da mulher.

Simone de Beauvoir disse: “não se nasce mulher, torna-se mulher”. O papel social de cada indivíduo é construído historicamente dentro de cada sociedade. A sociedade ocidental capitalista moderna, fortemente marcada por uma cultura machista, designa à mulher o papel de mãe e dona de casa. Obviamente, com os avanços dos movimentos feministas, esse lugar tem sido repensado e reorganizado, porém ainda é presente essa idéia, tanto entre os homens quanto entre as mulheres. Toda a cultura machista que permeia nossa sociedade está intimamente ligada à influência dos ideais judaico-cristãos, que associam a figura da mulher ao pecado e à corrupção do homem. A história bíblica de Adão e Eva já traz essa marca machista a partir do momento em que afirma que Eva surge da costela de Adão. Mesmo entendendo essa história como uma fábula metafórica, o caráter machista continua presente: é o homem quem dá origem à mulher, portanto a existência da última está subordinada à vontade do primeiro. Cria-se assim, a figura de uma mulher que depende do homem, o que dá origem à sociedade patriarcal e sexista na qual estamos inseridos. Algumas passagens da bíblia mostram claramente essa ideia da mulher como alguém que deve se submeter ao marido: “Uma esposa exemplar; feliz quem a encontrar! (...)Ela só lhe faz o bem, e nunca o mal, todos os dias da sua vida. (...)Antes de clarear o dia ela se levanta, prepara comida para todos os de casa (...)” (Provérbios, 31: 10-20); “À mulher, ele [deus] declarou: Multiplicarei grandemente o seu sofrimento na gravidez; com sofrimento você dará à luz filhos. Seu desejo será para o seu marido, e ele a dominará" (Gênesis, 3:16); “Porém se isto for verdadeiro, isto é, que a virgindade não se achou na moça, Então levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão, até que morra” (Deuteronômio 22:20-21. Pode ser que afirmem os contrários à essa crítica que as colocações estão no Velho Testamento, e não no Novo; Entretanto, o Novo Testamento também traz ideias machistas e que desvalorizam a mulher, subjugando-a ao desejo masculino: “Quero, porém, que entendam que o cabeça de todo homem é Cristo, e o cabeça da mulher é o homem, e o cabeça de Cristo é Deus.” (Coríntios, 11:3); “O homem não deve cobrir a cabeça, visto que ele é imagem e glória de Deus; mas a mulher é glória do homem. Pois o homem não se originou da mulher, mas a mulher do homem; além disso, o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem.” (Coríntios, 14:34-35); “Mulheres, sujeitem-se a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador. Assim como a igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus maridos.” (Efésios, 5:22-24). Dessa forma, desde os tempos mais remotos, toda a percepção que a mulher tem de si gira em torno dessa idéia de que o homem é um ser superior, inestimável e necessário na vida da mulher. Claro, vivemos em sociedade e as subjetividades necessitam da alteridade para serem entendidas como tal. Porém, a maneira que essa relação homem-mulher se deu historicamente está marcada por ações e ideais discriminatórios e que taxam a mulher como inferior, menos importante e ditam que ela deve se submeter às vontades do homem. Nesse sentido, podemos nos perguntar: como fica a questão da autonomia da mulher na atualidade? Apesar dos avanços, é ilusão achar que as mulheres alcançaram um status no qual são tão livres quanto os homens. Em pleno século XXI, a mulher não tem direito de ter controle sobre sua própria vida e seu próprio corpo, sendo o tempo todo bombardeada de uma demanda machista reforçada pela mídia que caracteriza uma violação do direito fundamental de liberdade. Quanto ao mercado de trabalho, a mulher sempre foi considerada “inferior” ao homem. Apesar dos avanços e das mudanças obtidas através da (suposta) equidade de direitos prevista no inciso I do Art. 5º da Constituição Federal de 1988, até hoje, em geral, as mulheres ganham menos que os homens, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2009. Os dados oficiais só reforçam o que, na prática, sabemos muito bem que acontece: as mulheres são desvalorizadas e sua competência muitas vezes é questionada em razão de seu sexo, e não de sua eficiência no trabalho. Dentro da perspectiva de sociedade de consumo, datas comerciais e propagandas reforçam a idéia da mulher como mãe e cuidadora (mas não provedora) do lar, propondo a reprodução deste modelo que há tanto tempo vem sendo sido combatido por tantas de nós. Agora, época de Dia das Mães, diversas propagandas falam sobre o “amor maternal” como algo incondicional, natural e inesgotável. Porém, em contraposição a esse viés biologizante do amor materno, presente tanto em discursos científicos quanto no senso comum, tem-se a ideia de que toda e qualquer relação amorosa, sendo relação, se constrói sócio-historicamente, não sendo portanto um “instinto” ao qual toda mulher responde. O amor é um “comportamento social, variável de acordo com a época e os costumes”. Pode-se entender essa naturalização do amor materno como uma justificativa para aprisionar a mulher como responsável pelos filhos e pelo bem-estar do lar; entendendo o amor materno como uma construção, não há porque imaginar qualquer motivo que impeça ambos os pais de dividir igualitariamente as tarefas referentes à família. Enfim, podemos concluir que os modelos de feminino e masculino têm mudado, e cada vez mais presenciamos uma reestruturação dos papeis sociais de homens e mulheres. Entretanto, essas mudanças não foram suficientes para uma equidade de direitos efetiva entre os sexos. Desde o século XIX, muitos avanços permitiram que as mulheres ganhassem voz, mas discursos machistas ainda se mostram presentes em diferentes esferas das relações sociais; ainda restam muitos resquícios de toda essa história de opressões.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Psicologia, sistema penal e as políticas públicas de segurança

A primeira pontuação que deve ser feita acerca das políticas públicas de segurança, especialmente na questão prisional, é que elas se baseiam em ideias que estão imersas nas raízes do sistema penal. Fala-se sobre pena, punição, exclusão do convívio social, e por trás desse discurso está uma lógica maniqueísta e simplória que divide as pessoas entre “boas” e “más”. Na psicologia, tem-se o conhecimento de que não há tal divisão. Mais, sabe-se que as ações das pessoas têm relação intrínseca com o contexto social, e que nem cinco anos de graduação nem nenhuma especialização dará aos psicólogos instrumentos capazes de prever as ações dos indivíduos. Ainda assim, isso é esperado desses profissionais pela sociedade e, inclusive, pelo próprio Estado, no caso da Psicologia Jurídica. Parte disso se dá porque os próprios psicólogos não sabem delimitar seu campo de atuação, se colocando, vez ou outra, nessa posição “daquele que sabe sobre o homem e que pode prever como ele se comportará no futuro”.
É nessa organização da lógica do sistema penal que se encontra o primeiro problema das políticas públicas de segurança. Estamos partindo de pressupostos equivocados, de conceitos sem cabimento. Todas as políticas públicas se voltam para a punição daquele que infringiu uma lei, sem levar em consideração que a punição por si só não trará resultados significativos, apenas trará uma falsa ideia de paz social que acalma os nervos de uma sociedade vingativa violadora de direitos.
Existe hoje um movimento forte por parte de profissionais psi e do direito no sentido de buscar uma alternativa às penas de privação de liberdade, baseados principalmente no Garantismo Penal de Luigi Ferrajoli. Por essa razão, a discussão de políticas públicas para o sistema prisional está imersa num debate um tanto mais amplo. Estamos em um momento decisivo para a elaboração de novas ideias de políticas públicas; apesar de haver poucas ideias inovadoras (é difícil se desvincular da lógica estabelecida), aos poucos as pessoas estão percebendo que existe algo de errado na maneira com que tratamos nossos criminosos, e identificar o problema é o primeiro passo para a mudança.
Dados do Censo de 2010 mostram a urgência por políticas públicas para o sistema prisional: O Brasil tem um total de 494.237 presos, o que corresponde a 253 presos a cada 100.000 habitantes, dando ao Brasil o lugar de 4ª maior população carcerária do mundo. Ainda o Censo reafirma que políticas públicas estão todas interligadas: 60% desses presos não concluiu o ensino fundamental. Os números deixam claro que existe a necessidade urgente de uma reformulação de todas as políticas públicas, não só na área da segurança.
Quanto à atuação do psicólogo no sistema prisional, é de suma importância lembrar que seu trabalho deve sempre embasar-se da Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos princípios do Código de Ética que rege a profiss, tendo destaque especial os itens I e II do preâmbulo: o respeito e promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano. Desta forma, sua prioridade será sempre a saúde dos indivíduos, e não os interesses da instituição ou do sistema. Percebe-se aqui o paradoxo no qual está inserido o psicólogo: é seu dever trabalhar para a promoção da liberdade num regime de privação de liberdade, e deve sempre buscar resgatar a dignidade do indivíduo, num contexto onde todos sabem bem que dignidade não existe. Por esses e outros motivos, a participação do psicólogo na criação de políticas públicas na área prisional é de suma importância, ainda que esse seja um trabalho extremamente difícil.

domingo, 21 de abril de 2013

Carandiru: 20 anos depois...

20 anos depois do massacre que tirou a vida de 111 pessoas no Carandiru, tem fim o julgamento dos policiais que deixaram essa mancha na história do nosso país. 23 policiais foram condenados a 156 anos de prisão cada pela morte de 13 detentos. Lendo os depoimentos, especialmente o de um dos sobreviventes, fica claro que uma verdadeira chacina aconteceu naquele 2 de outubro de 1992. Foi crueldade pura e simplesmente, crueldade esta que reflete como é urgente uma discussão sobre direitos humanos, seja junto à polícia, seja junto à sociedade civil.
20 anos parece um tempo demasiadamente grande de distância entre um acontecimento hediondo desses e o julgamento dos responsáveis. Mas, como disse Sakamoto, a demora se deu pelo simples fato de que nós não estavávamos a fim de ver um espelho no banco dos réus.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A falta de lógica da pena de morte.

É difícil falar de Direitos Humanos sem parecer falso moralista. É difícil também abordar o tema sem que um mundo de gente acuse você de um mundo de coisas. Os argumentos daqueles que acham que "Direitos Humanos são uma bobagem" e que, por exemplo, "lugar de bandido é na cadeia" podem parecer, à primeira vista, logicamente viáveis. Entretanto, um olhar um pouco mais atento mostra que a lógica rapidamente se desfaz. Usemos como exemplo o argumento "quero ver se um bandido matar alguém que você ama, se você vai defender os direitos dele". Passar por uma situação trágica de perder alguém querido deixa marcas e dores profundas. Vivemos o luto com dificuldade tremenda, buscando uma explicação que nos conforte. Não suportamos a ideia de que alguém seja capaz de chegar ao máximo da violação de direitos, que é a violação do direito à vida. Para muitas pessoas, a solução para isso é a pena de morte. Pensemos, pois: nos parece insuportável perder alguém que amamos; porém, por algum motivo, é perfeitamente aceitável que outra pessoa perca alguém que ela ama. Sim, pode parecer uma enorme novidade, mas pessoas que cometem crimes também têm pais, mães, filhos, esposas, maridos, amigos. Mais ainda: lutamos diariamente para que nosso direito de viver seja preservado e respeitado, porém queremos que isso seja alcançado a partir da violação desse direito de outras pessoas. Dizer que "essas pessoas não merecem seus direitos porque violaram os direitos dos outros" por si só já elimina qualquer possibilidade da pena de morte fazer sentido, pois, violando os direitos alheios, você, que defende essa lógica, automaticamente deveria admitir que deve perder seus direitos também, já que estará violando direitos. Não obstante, existe uma outra questão, bem mais simples que as anteriores: se você tem o direito de matar uma pessoa porque ela matou outra pessoa, é necessário admitir que outro alguém também pense como você, e, assim, mate você por ter matado essa primeira pessoa. Imaginem isso como um círculo infinito, em que todas as pessoas do mundo acabarão se matando, levando ao fim da raça humana. Isso faz algum sentido?
A ideia de que a prisão não ressocializa ninguém - que é a justificativa, muitas vezes, para a pena de morte - talvez tenha sua origem e explicação no fato de não haver, de fato, interesse em ressocializar ninguém. Buscamos bodes expiatórios que carreguem sozinhos a culpa e os punimos, num movimento de punição por punição que tem como objetivo acalmar um sentimento de vingança e nos isentar de uma culpa que é social, coletiva, e não individual.

sábado, 6 de abril de 2013

Repensar os relacionamentos.

Comédias românticas são um desfavor à humanidade, especialmente à nós, mulheres. Elas são a reprodução de um discurso machista sobre um amor inexistente que nos obriga a colocar relacionamentos acima de qualquer coisa e fazer nossa felicidade depender do sucesso amoroso. Praticamente, dizem que nós, mulheres, devemos aguentar todo tipo de idiotice e falta de respeito de todos os homens porque, no fundo, "ele te trata mal porque gosta demais de você e não sabe lidar com isso". O filme "Ele não está tão afim de você" é a única comédia romântica que tem um enredo que se aproxima minimamente da realidade e traz de maneira divertida a ideia de que devemos parar de nos enganar e encarar a verdade, que é que, muitas vezes, o cara não está interessado em você. Falo isso pra chegar uma reflexão importante: chegamos num ponto estranho em que as pessoas preferem ser infelizes a ficarem sozinhas. Que desde sempre existe uma pressão social estúpida para que principalmente as mulheres estejam sempre lindas e acompanhadas todos sabemos. Mas existe um limite aceitável de falta de amor próprio para cumprir exigências sociais como essa. As pessoas usam justificativas sentimentalóides sem sentido e ignoram completamente todas as atrocidades que o outro faz enquanto usa a infeliz como bola de pingue-pongue num joguinho sádico cujo único objetivo é satisfazer necessidades momentâneas de uma pessoa sem nenhuma noção do que é respeito. Na verdade, as pessoas não sabem explicar as coisas que sentem porque de fato não fazem a menor ideia do que sentem ou de porque estão com um sujeito que não tem nenhum interesse real em fazer parte de uma relação de cumplicidade e carinho. Elas continuam usando essas explicações metafísicas, falam de destino, de algo que acontece "lá dentro", ou qualquer outra coisa desse tipo porque meio segundo pensando "por que estou com essa pessoa?" vai fazer com que admitam que, na verdade, se deixaram levar por uma noção infantil de um amor romântico que não é real. E vão perceber que o único motivo real pelo qual estão com essa pessoa que pouco se importa com elas é por estarem procurando alguém que corrobore a visão pessimista e pequena que têm de si mesmas.
É urgente que as mulheres parem de depositar todas as suas expectativas de felicidade em relacionamentos e comecem a perceber que é, sim, e ótimo estar com alguém, mas, na maioria das vezes, ele não está, mesmo, tão a fim de você; e isso não é o fim do mundo, porque esse relacionamento que você está procurando nunca vai acontecer - porque ele não existe.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Quando o mau caratismo se junta à imbecilidade.

É difícil de acreditar: foi feito um vídeo afirmando que o deputado Marco Feliciano renunciou. Renunciou à "privacidade" e às "noites de paz e sono tranquilo" para continuar lutando pelo direitos humanos como presidente da CDHM. No vídeo, um assessor do deputado deliberadamente distorce fatos, imagens e discursos de ativistas de direitos humanos e outros deputados que se opõem à Feliciano para legimitar o racismo, a homofobia e a estupidez do deputado do PSC, afirmando que os verdadeiros monstros são os defensores dos direitos humanos como Jean Wyllys, Domingos Dutra, Toni Reis (presidente da associação brasileira de LGBTT).
Num ato de mau caratismo, o vídeo faz as falas sobre sexualidade infantil parecerem "uma defesa à pedofilia como uma maneira de educar sexualmente uma criança de 6 anos", dentre outras tantas atrocidades.
Marco Feliciano afirma que desconhecia a existência desse material, apesar de reconhecer que foi de fato um assessor seu que o produziu. Sério, Feliciano? Não basta esse golpe baixo, você ainda vai tirar o seu da reta dizendo que "não sabia do vídeo"? Repito: é difícil de acreditar...

O link pra matéria completa e o vídeo segue abaixo:


Além dos discursos preconceituosos, homofóbicos, racistas e agora essa campanha suja e nojenta, Marco Feliciano consegue me irritar por fazer com que eu questione todos os meus valores e ideias acerca do ser humano: indo contra tudo que sempre acreditei, não acredito que ele seja capaz de fazer nada bom na vida; ele é, realmente, um indivíduo desprezível.
É preciso que todo mundo junte forças para lutar para que ele renuncie. Com a pressão crescendo, ele vai ter que ceder.  Não é preciso ser gay ou negro; não precisa sequer ser ativista de direitos humanos. É preciso somente ser uma pessoa que se importa minimamente com outras pessoas e com o futuro do nosso país pra que a ideia de um Marco Feliciano como presidente da CDHM da Câmara dos Deputados pareça absurda.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Ah, Clarice...

"Mas ouve um instante: não estou falando do futuro, estou falando de uma atualidade permanente. E isto quer dizer que a esperança não existe porque ela não é mais um futuro adiado, é hoje. (...) prescindir da esperança significa que eu tenho que passar a viver, e não apenas a me prometer a vida."

Tem algo na escrita de Clarice Lispector que desperta sensações únicas e um tanto inexplicáveis. Clarice não é inteligível, seus livros são feitos menos para entender e mais para sentir. E é assim mesmo que funciona: tem partes em que nada parece fazer sentido, mas alguma coisa - uma intuição, talvez - nos diz que o que ela está falando é essencial. É quase palpável, e ao mesmo tempo completamente inatingível. Ler Clarice pode mudar a vida de uma pessoa e ela sequer vai conseguir explicar o porquê. O que acontece é que, de alguma maneira, o que ela diz faz sentido, mas um sentido que você vai descobrindo aos poucos, dia-a-dia. Às vezes, logo de cara, você nem dá atenção para algo que ela diz. Mas aí, de repente, tempos depois... você pensa "era isso que ela queria dizer". Acho que pode se dividir a vida em pré-Clarice e pós-Clarice; e pós-Clarice, nada é como antes.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Porque somos nós.

A vontade de escrever a melhor coisa que você já leu me atrapalha, e por isso não consigo escrever nada que chegue perto do que eu quero dizer. É difícil sair do clichê, do chato, do normal, do senso comum. Logo sobre a gente, que é tudo menos clichê, chato, normal ou senso comum! Logo sobre a gente, que fora da caretice do convencional encontrou tanta coisa bonita. Sabe, fico pensando e acho engraçado que duas pessoas possam passar 6 anos sem se falar depois de terem se visto uma vez e, então, sem que nenhum dos dois estivesse esperando ou procurando, surge todo esse carinho e essa vontade de estar junto que nem meio milhão de quilômetros conseguem diminuir. Te sinto perto mesmo longe, porque estou sempre pensando em você, e lembrando dos incontáveis sorrisos que surgem quando estamos juntos. Tentar explicar porque gosto de você é uma coisa difícil, porque nada que eu fale pode traduzir essa coisa que a gente tem. Chico Buarque disse uma vez em uma entrevista: "Acho a coisa mais simples, mais definitiva, pra explicar o amor entre duas pessoas: gostava dele porque era ele, porque era eu." Porque é você, porque sou eu... É. É isso.