domingo, 4 de maio de 2014

O homem e o morrer: análise fenomenológica do filme “O Sétimo Selo”

Texto em parceria com Natália Ferracin

Eu vivo procurando em tudo quanto é lugar
Nos bares nas igrejas eu tentei encontrar
Nos becos, nas esquinas, na lama e no pó
Até do bolso do meu paletó
Eu sei que essa coisa que eu tenho que achar
Talvez tão perto que a mão não possa tocar.”
(Paranóia II, Raul Seixas)

“O Homem é um animal de logos.” Foi o que disse o filósofo sofista Aristóteles.  Logos tem origem do grego e significa “discurso”, “pensamento”. Martin Heidegger deu expansão a este pensamento ao afirmar que o homem não é o ser, mas aquele que discursa sobre o ser, que interroga sobre este. Ora, e quem nunca questionou: “Para onde vou?”, “Quando morrerei?” “Como morrerei?” “O que acontece após a morte?” em uma tentativa fracassada de encontrar a resposta certa para seguir uma vida certa? Essa tentativa frustrada de encontrar a iluminada resposta vem da ânsia de dar o sentido à vida. Assim, perguntar sobre o sentido pode-se abrir a possibilidade de construir significado: encontrar inúmeras possibilidades de ser.
Dessa maneira, dependendo da forma que o sujeito é afetado pelo mundo, há uma perspectiva relativa de interpretá-la. Aquilo que vivi pode dar uma margem de interpretação da morte diferente daquilo que um monge de Kathmandu viveu. Engraçado como nossa história de vida pode nos orientar para morte, como um início pode criar múltiplos finais e nos conduzindo a uma realidade multifacetada. É impossível me separar do contexto do meu ser porque somente eu tenho a experiência do “aqui e agora”. 
Se através de minha perspectiva posso criar interpretações de meus questionamentos, quando encontro as repostas deles ou penso nas possibilidades de respostas, geralmente esse movimento pode causar um sentimento inefável: a angústia.  E a angústia é a disposição que nos leva para nossa própria condição existencial porque ela entra em contato com a essência do ser humano. Condição esta que é de desalojamento e está sempre em busca de alojamento. Ou seja, na procura do sentido, na procura da resposta, na procura do por quê.
Esses questionamentos que permeiam a vida do homem são também objeto de discussão na arte. “O Sétimo Selo” (1956), filme escrito e dirigido por Ingmar Bergman e cujo título faz referência ao livro bíblico do Apocalipse, que diz que Deus tem um livro fechado com sete selos e a abertura de cada um desses selos trará malefícios para a humanidade, sendo a abertura do sétimo selo responsável pelo fim dos tempos, busca explicitar a importância dessas questões sobre o ser. O filme traz a história de um cavaleiro, Antonius Block, e seu vassalo. Ao partirem rumo às Cruzadas, eles vão em busca da Terra Santa para lutar por um Deus que seria grato a seus esforços. No entanto, ao retornarem e se depararem com a peste negra, entram em conflito, levantando questões de cunho existencial, como a morte e a existência desse Deus que os traiu. Como Raul Seixas coloca em sua música, citada acima, o homem anseia por buscar um Deus, por acreditar fervorosamente que existe algo além da morte, pois não suporta a ideia de sua finitude. Essa questão se mostra para Antonius durante morte de uma jovem condenada aos tribunais do santo ofício: ao vê-la entrar em contato direto com a morte, ele percebe seu próprio vazio existencial. Ao enxergar que em seus olhos ela se sente sozinha, ele se dá conta de que pode não existir um respaldo espiritual e questiona sua fé em Deus, entidade que ele tanto procura em cada canto do mundo, em busca de qualquer sinal de que seu ser se perpetuará após a morte.

Em determinado momento do filme, o cavaleiro encontra-se com a Morte. Ela está pronta para dar fim à vida do homem, mas o mesmo propõe que joguem uma partida de xadrez: se a Morte ganhar, poderá leva-lo. Se ele ganhar, ela lhe dará mais tempo para que possa indagar-se sobre o sentido da vida. A Morte aparece em vários momentos de forma repentina, mostrando-se sempre presente, podendo surgir a qualquer instante. O filme faz, constantemente, referências à existência ou não de Deus, ao sentido da vida, à uma suposta vida após a morte, enfim, à angústia de saber-se um ser-para-a-morte. Em diversos momentos aparecem questionamentos ligados à religião e a realocação da mesma enquanto paradigma que explica todos os fenômenos. A crítica à instituição Igreja fica implícita durante todo o filme; nem Deus nem o Diabo aparecem concretamente, mas mostram-se através dos personagens e das referências que estes fazem aos mesmos.
Bergman tenta mostrar, nesse filme e em toda a sua obra, que a angústia existencial faz parte da condição humana e é clara a influência de Martin Heidegger em sua trajetória no cinema. Hoje, com a medicalização da sociedade e a patologização da vida cotidiana, entende-se angústia como um sintoma patológico que deve ser extirpado. Bergman e Heidegger postulam o contrário, uma vez que é próprio do ser humano sentir angústia; ela não é um problema, é uma resposta ao fato de saber-se um ser-para-a-morte. Para Heidegger, a relação do homem com o mundo pauta-se nessa condição de ter consciência de ser um ser que caminha para a morte. Entender o sentido da vida tem relação estreita com saber-se assim, portanto não há nada patológico na angústia existencial.
A partir de Heidegger podemos pensar, também, os conceitos de Dasein (ser-aí) e ser-com-outro. Nossa consciência se move em direção ao mundo e este se abre para nossa consciência em um processo em conjunto, porque vivemos e nos relacionamos com o outro e com o mundo do outro em busca de uma existência autêntica. Ao notar que está em uma existência inautêntica, Antonius se encontra em uma situação de decadência e sai em busca de um caminho mais verdadeiro e que faça sentido para aquilo que ele é, mostrando que é da condição humana questionar seus conflitos e o sentido da vida – questionamento que gera angústia pois o viver é calcado na imprevisibilidade e na incerteza.
O homem, enquanto único ser que tem consciência de ser, é o ser que pode responder sobre o sentido de ser, pois é ele quem é capaz de indagar-se sobre esse sentido. Antonius, na busca por essas respostas, vai de encontro a outros questionamentos, como a existência de Deus e o que haverá depois da morte. É importante frisar que esses questionamentos não são “bem-vistos” no contexto em que o ele se encontra, pois a religião aqui assume um caráter punitivo àqueles que não obedecem e não temem a Deus. Em um contexto em que a religião impõe que os indivíduos devem temer a morte por serem pecadores, restringem-se as possibilidades de pensar o sentido de ser fora desse modelo. O posicionamento questionador do cavaleiro representa, então, uma quebra do modelo vigente, uma subversão àquilo que lhe é imposto pela religião, e isso possibilita que ele pense outras maneiras de ser-no-mundo e outros sentidos para sua existência.
A própria religião pode ser entendida como uma maneira de dar sentido à vida. Durante nossa existência, buscamos incessantemente por respostas a questões como “quem sou eu?”, “o que faço aqui?”, “qual o sentido da minha vida?” e “o que acontecerá comigo depois que eu morrer?”. A religião seria, então, uma criação do homem para que tivesse respostas para essas questões. Isso não significa dizer que a religião não tem valor como explicação para o sentido de ser; é uma possibilidade que faz sentido para alguns indivíduos, portanto é válida e sua discussão deve ultrapassar a lógica da Verdade e ser compreendida à luz da experiência e das significações.
Quando a Morte se mostra para todos, nota-se claramente a forma que cada um enxerga a Morte. Ela é única, por ser para todos, no entanto, é multifacetada, sendo passível de inúmeras interpretações de acordo com a maneira que cada um atribui relações de significado para ela. Antonius não a aceita e sofre com sua presença, ao passo que a Jovem Mulher a aceita e diz que chegou sua hora, indicando duas maneiras antagônicas de enxergar o mesmo fenômeno. As relações que o sujeito faz com a morte variam de cultura para cultura, de pessoa para pessoa. Porém, todos temos alguma teoria sobre a morte. Todos nós nos indagamos sobre o sentido da vida, e saber-se finito gera angústia para todos.
O filme mostra, por fim, que o homem sustenta uma relação instável com a morte. Ao mesmo tempo em que se deve, em algum nível, aceitar-se um ser-para-a-morte, talvez não seja possível uma aceitação real de sua finitude. Na cena em que o cavaleiro está no confessionário, ele confessa seu plano para burlar a Morte no jogo de xadrez. Ele aceita, em algum nível, que a Morte pode levá-lo se ele perder a partida, mas agarra-se a toda oportunidade de manter sua vida, como que negando a possibilidade da morte quando afirma que “ninguém nunca ganhou dele num jogo de xadrez”.  A morte é um fato irrefutável e é, por mais clichê que isso possa parecer, a única certeza que temos na vida. Entretanto, a certeza da morte não acalma a angústia de todas as incertezas no caminho da vida e, angustiados, vamos tentando viver da maneira mais autêntica possível. 

[Texto publicado no site Causas Perdidas]

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