domingo, 4 de maio de 2014

A cultura machista e o papel social da mulher



Simone de Beauvoir já disse: “não se nasce mulher, torna-se mulher”. O papel social de cada indivíduo é construído historicamente dentro de cada sociedade. A sociedade ocidental capitalista moderna, fortemente marcada por uma cultura machista, designa à mulher o papel de mãe e de dona de casa. Obviamente, com os avanços dos movimentos feministas, esse lugar tem sido repensado e reorganizado, porém ainda é presente essa ideia, tanto entre os homens quanto entre as mulheres. Toda a cultura machista que permeia nossa sociedade está intimamente ligada à influência dos ideais judaico-cristãos, que associam a figura da mulher ao pecado e à corrupção do homem. A história bíblica de Adão e Eva já traz essa marca machista a partir do momento em que afirma que Eva surge da costela de Adão. Mesmo entendendo essa história como uma metáfora, o caráter machista continua presente: é o homem quem dá origem à mulher, portanto a existência da última está subordinada à vontade do primeiro. Cria-se, assim, a figura de uma mulher dependente do homem, característica tão própria da sociedade patriarcal e sexista na qual estamos inseridos.
Algumas passagens da bíblia mostram claramente essa ideia da mulher como alguém que deve se submeter ao marido: “À mulher, ele [Deus] declarou: Multiplicarei grandemente o seu sofrimento na gravidez; com sofrimento você dará à luz filhos. Seu desejo será para o seu marido, e ele a dominará"(Gênesis, 3:16); “Porém se isto for verdadeiro, isto é, que a virgindade não se achou na moça, então levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão, até que morra”(Deuteronômio 22:20-21). Pode ser que os contrários a essa crítica afirmem que essas colocações estão no Velho Testamento; Entretanto, o Novo Testamento também traz ideias machistas e que desvalorizam a mulher, subjugando-a ao desejo masculino: “Quero, porém, que entendam que a cabeça de todo homem é Cristo, e o cabeça da mulher é o homem, e o cabeça de Cristo é Deus.”(Coríntios, 11:3); “O homem não deve cobrir a cabeça, visto que ele é imagem e glória de Deus; mas a mulher é glória do homem. Pois o homem não se originou da mulher, mas a mulher do homem; além disso, o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem.” (Coríntios, 14:34-35); “Mulheres, sujeitem-se a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador. Assim como a igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus maridos.” (Efésios, 5:22-24).
Dessa forma, desde os tempos mais remotos, toda a percepção que a mulher tem de si está ligada à ideia de que o homem é um ser superior, inestimável e necessário na vida dela. Claro, vivemos em sociedade e as subjetividades necessitam da alteridade para serem entendidas como tal. Porém, a maneira que essa relação homem-mulher se deu historicamente está marcada por ações e ideais discriminatórios e que taxam a mulher como inferior, menos importante e, também, ditam que ela deve se submeter às vontades do homem. Nesse sentido, podemos nos perguntar: como fica a questão da autonomia da mulher na atualidade? Apesar dos avanços, é ilusão achar que as mulheres alcançaram um status no qual são tão livres quanto os homens. Em pleno século XXI, a mulher não tem direito de ter controle sobre sua própria vida e seu próprio corpo, sendo o tempo todo bombardeada por uma demanda machista reforçada pela mídia que caracteriza uma violação do direito fundamental de liberdade.
Outro ponto relevante é quanto a atuação da mulher no mercado de trabalho: a mulher sempre foi e ainda é considerada “inferior” ao homem. Apesar dos avanços e das mudanças obtidas através da (suposta) equidade de direitos prevista no inciso I do Art. 5º da Constituição Federal de 1988, até hoje, em geral, as mulheres ganham menos que os homens, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2009. Os dados oficiais só reforçam o que, na prática, sabemos muito bem que acontece: as mulheres são desvalorizadas e sua competência muitas vezes é questionada em razão de seu sexo, e não de seu profissionalismo.
Dentro da perspectiva de sociedade de consumo, datas comerciais e propagandas reforçam a ideia da mulher como mãe e cuidadora (mas não provedora) do lar, propondo a manutenção deste modelo que há tanto tempo vem sendo combatido por tantas de nós. São inúmeras propagandas abordando o “amor maternal” como algo incondicional, natural e inesgotável. Porém, em contraposição a esse viés biologizante do amor materno, presente tanto nos discursos científicos quanto no senso comum, tem-se a ideia de que toda e qualquer relação amorosa, sendo relação, se constrói sócio-historicamente, não sendo, portanto, um “instinto” ao qual toda mulher responde. O amor é um comportamento social, variável de acordo com a época e os costumes. Pode-se entender essa naturalização do amor materno como uma justificativa para aprisionar a mulher como responsável pelos filhos e pelo bem-estar do lar; entendendo o amor materno como uma construção, não há porque imaginar qualquer motivo que impeça ambos os pais de dividirem igualitariamente as tarefas referentes à família.
Os modelos de feminino e masculino têm mudado, e cada vez mais presenciamos uma reestruturação dos papeis sociais de homens e mulheres. Entretanto, essas mudanças não foram suficientes para uma equidade de direitos efetiva entre os sexos. Desde o século XIX, muitos avanços permitiram que as mulheres ganhassem voz, mas discursos machistas ainda se mostram presentes em diferentes esferas das relações sociais; ainda restam muitos resquícios de toda essa história de opressões.

[Texto publicado no site Causas Perdidas]

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