domingo, 4 de maio de 2014

Prefeitura do RJ vai levar desabrigados da Rio-2016 para área de risco



A prefeitura do Rio, sob gestão de Eduardo Paes (PMDB/RJ), continua a impressionar – e não falo de uma boa impressão. Conhecido por suas ações cheias de segundas intenções, o prefeito anunciou, no final do mês de julho, que irá remover compulsoriamente os moradores da comunidade Vila Autódromo para a construção do Parque Olímpico das Olimpíadas de 2016.
A comunidade está situada na baixada de Jacarepaguá, próximo à Barra da Tijuca, área altamente valorizada da cidade e vislumbrada por grandes empreendedores imobiliários que, com a expulsão dos moradores, poderão lucrar uma quantia significativa com as obras para os jogos olímpicos. As 500 famílias que vivem na área, obviamente, se recusam a sair. Altair Antunes Guimarães, presidente da associação de moradores da Vila, mora na Comunidade desde 1990, e afirma que a maioria das pessoas que residem na área tem título de posse de suas casas emitido pelo Estado, o que significa que moram lá legalmente. Ele afirma que a remoção da comunidade tem como objetivo “valorizar” a área: O prefeito Eduardo Paes é o Robin Hood dos ricos. Quer nos tirar daqui para dar o local para os ricos montarem condomínios de luxo. Somos uma comunidade pacífica e temos direito de morar aqui”, disse em entrevista ao UOL Esportes. A Secretaria Municipal de Habitação rebateu a declaração do presidente da associação, dizendo que está cumprindo ordem judicial e que, após os jogos, a área será transformada em um parque público que poderá ser usufruído pelos ex-moradores e por toda a população, e o local contará com novas linhas de ônibus que estão sendo construídas para as Olimpíadas.
Porém, Paes não está satisfeito em remover uma comunidade do local aonde, por anos, essas pessoas construíram vínculos, famílias e rotinas, ignorando completamente que a moradia não é somente uma área fechada por quatro paredes, mas local de investimento afetivo e de relações. Os moradores serão realocados no Parque Carioca, que fica ao lado da Estrada dos Bandeirantes e, conforme aponta estudo da Geo-Rio (Instituto de Geotécnica do Município), está em área de risco. O local, que contará com 900 apartamentos distribuídos numa área de mais de 80 mil m², está muito próximo à base do Maciço da Pedra Branca, e devido a sua proximidade com a montanha e outras características geológicas, foi classificado no Mapa de Suscetibilidade de Escorregamento do Rio como tendo médio risco de desmoronamento. O projeto tem orçamento de R$81,4 milhões, e está sendo construído dentro do programa Minha Casa Minha Vida.
A Secretaria Municipal de Habitação do Rio afirma ter todos os documentos necessários para que a obra seja executada dentro dos parâmetros legais e, como de praxe, passou a responsabilidade da segurança do local para a Geo-Rio. Marcio Machado, presidente do Instituto, confirmou os dados do Mapa de Suscetibilidade de Escorregamento e disse, também, que apesar do risco de deslizamentos, podem ser feitas obras de contenção que possibilitariam a habitação de forma segura. Ainda de acordo com o presidente, foi exigido que a Prefeitura executasse as obras de contenção; entretanto, até agora não foi vislumbrado nenhum indício de que tal exigência esteja sendo cumprida.
O empurra-empurra da culpa não para por aí. Quando procurado, o Ministério das Cidades, gestor do Minha Casa Minha Vida, disse que no caso do Parque Carioca, a responsável seria a Caixa Econômica Federal – que afirmou em nota que não financia nenhuma obra situada em área de risco e está investigando os fatos relativos à obra em questão.
Mesmo com a pressão da Prefeitura e suas tentativas ilegais de remover uma comunidade que tem direito legal de habitar a área, os moradores estão fortemente organizados e, conforme informações do blog da comunidade, elaboraram o Plano Popular Vila Autódromo, que conta com o auxílio de especialistas para garantir condições adequadas de moradia e urbanização, bem como para zelar pelo direito constitucional de moradia que está sendo ameaçado por interesses econômicos dos grandes empresários que se apoiam na negligência da prefeitura e no oportunismo de Eduardo Paes para garantir seus lucros. Nesse sentido, a denúncia de Altair, o presidente da associação de moradores, parece exata. Eduardo Paes faz de tudo que está ao seu alcance para beneficiar grandes empresários e para “limpar” as áreas ricas da cidade – ainda mais em tempos de JMJ, Copa do Mundo e Olimpíadas. A remoção compulsória por si só já mostra quais as intenções e preocupações reais de Paes. Realocar os moradores em área de risco, sem nenhuma preocupação com a segurança dessas pessoas é a prova cabal do completo descaso que norteia a sua atuação como prefeito. No rol se prioridades da prefeitura, parece não constar a garantia de direitos para a população pobre, que tem que viver dia após dia sabendo que a qualquer hora pode ter que abandonar seu lar.
Uma cidade se faz não só pelas suas praias e atrações turísticas; o que faz uma cidade é, antes de mais nada, seu povo. A cada dia que passa, a cada medida higienista e discriminatória tomada pela prefeitura, a cada acordo sujo que prejudica a população para beneficiar um empresário, o governo elitista de um prefeito que só se interessa por ele mesmo ameaça aquilo que é essencial para fazer do Rio a Cidade Maravilhosa: os cariocas.

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