Há 25 anos, o povo
brasileiro, através de seus representantes reunidos em Assembleia Constituinte,
promulgou a sétima Constituição do país. A chamada Constituição Cidadã, uma das
mais avançadas do mundo, veio no momento de redemocratização, após 21 anos de
Ditadura Militar. Nossa Carta Magna, Lei maior da República Federativa do
Brasil, é fundada sobre os valores de igualdade, liberdade, justiça,
fraternidade, harmonia social, segurança e bem-estar, visando assegurar o
exercício de direitos individuais, políticos e sociais.
A Constituição é um marco, um avanço inestimável na luta pela justiça
social. Ela representa a ânsia por direitos em uma sociedade que, durante tanto
tempo, viveu sob a arbitrariedade e a tortura de um dos regimes militares mais
violentos da História. Ela é, sem dúvida alguma, uma conquista de um povo que
lutou pela democracia com garra, força, e esperança por dias melhores. O artigo 5º, que emociona quem o lê
por suas inclinações fortemente humanistas, explicita como deveria ser uma
sociedade justa e igualitária: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção
de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros
residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à
igualdade, à segurança e à propriedade”.
Somamos, hoje, um quarto
de século de democracia, e alcançamos
muitas coisas. O povo brasileiro foi às ruas e fez prevalecer sua vontade;
muitos, inclusive, morreram defendendo seus ideais nessa luta por um Brasil
justo. Conseguimos, enquanto nação, redigir uma Constituição totalmente pautada
nos Direitos Humanos, que marca a estabilidade política do país e cumpre seu
papel de instaurar a democracia. Porém, vinte e cinco anos depois, conseguimos
pôr em prática o que está garantido constitucionalmente? Será que somos, de
fato, uma nação justa, igualitária, que preza pela dignidade humana? Será que
todos os brasileiros, “sem distinção de qualquer natureza”, usufruem de seus
direitos individuais, políticos e sociais?
Nas periferias, milhares de brasileiros vivem no medo – medo do tráfico,
do crime organizado que, por causa de um Estado ausente, consegue chamar de
proteção o que, na verdade, é cerceamento da liberdade; medo da polícia, que ao
invés de cumprir seu papel de proteger, ataca. Negros e pobres sofrem com a
marginalização, e o descaso do Estado (legitimado no imaginário social) resulta
na favelização, na falta de saneamento básico e de acesso a condições dignas de
vida. Ainda vemos resquícios da escravidão que tanto marcou nosso país, e a
exclusão e o preconceito são rotina na vida de tantos. Os que não podem pagar
por uma escola particular se veem obrigados a ter seus filhos frequentando
escolas públicas de péssima qualidade. O SUS, projeto brilhante e pioneiro de
saúde pública, ainda encontra dificuldades gigantescas para se efetivar como
política de qualidade e para todos. Nossas prisões, superlotadas, reproduzem
torturas como que as que assolaram o Brasil durante a ditadura, e mesmo que
todos saibam disso, nada é feito para mudar essa realidade. Contamos com
Políticas de Ações Afirmativas excepcionais, mas o Estado falha em criar
estratégias que cortem os problemas pela raiz. Milhares de brasileiros vivem em
situação de miséria. Em uma sociedade heteronormativa, a comunidade LGBTTT vive
a rejeição e o medo da intolerância. Ateus são hostilizados e taxados de
“pessoas más”, sendo vedado a eles a livre expressão de sua não-crença. Mulheres
sofrem como o machismo do dia-a-dia e são repreendidas se fogem da construção
social do que é “ser mulher”. Indígenas lutam por suas vidas e suas terras
diariamente. Muitas comunidades lidam com a ameaça constante de serem
compulsoriamente removidas, pois o Estado, diversas vezes, sobrepõe os interesses
de poucos (privilegiados) aos interesses de muitos.
Para muitos brasileiros e brasileiras, não há espaço para a diferença. Não
há igualdade entre brancos e negros, entre ricos e pobres, entre heterossexuais
e homossexuais, não há Estado laico. Não há acesso à educação, saúde, lazer,
cultura: a eles, são negados seus direitos fundamentais – os mesmos que a
Constituição preza e, pelo menos em teoria, garante. Isso mostra que a
existência de uma Constituição tão avançada quanto a nossa é um marco a ser
comemorado, mas não é suficiente para garantir que o que ela prevê seja
materializado no dia-a-dia da população – muito menos nos isenta da
responsabilidade de continuar lutando por nossos direitos. As manifestações que
vêm acontecendo desde junho trazem consigo novos ares, novas perspectivas, mas
a luta é constante, diária e se faz da construção no dia-a-dia, em nossas
práticas enquanto cidadãos.
Toda essa situação mostra que se faz urgente a criação de mecanismos que
garantam, de fato, os direitos do povo brasileiro, de todo o povo
brasileiro, e não de uma elite branca e economicamente mais favorecida. A
dificuldade está no fato de que as leis não são a salvação da pátria; a própria
Constituição é prova disso. Não basta que tenhamos leis que garantam direitos
se a sociedade não internaliza essas leis, se a lógica vigente é de
individualismo, intolerância, exclusão. Em cidades cada vez maiores, vivemos em
grupos cada vez menores, mais restritos, e tendemos a ver a humanidade não como
um coletivo acolhedor, mas sim como o inimigo a ser combatido. É imprescindível
um processo de conscientização, uma educação cidadã, pautada na ideia da
dignidade humana como absolutamente inviolável, que fortaleça o sentimento de
comunidade há tanto perdido: não há eu e os outros, há nós, seres humanos,
brasileiros. Somente quando admitirmos que o igual e o diferente não se excluem,
mas se completam numa dialética própria da vida humana, quando não mais
segregarmos esse ou aquele grupo partindo de pressupostos racistas,
homofóbicos, preconceituosos, quando sairmos de uma lógica cristã que
hipocritamente nos obriga a fingir uma preocupação com o outro que não é
genuína nem baseada na ideia de igualdade, mas sim de medo de uma suposta
punição, quando pararmos de ter dó de quem não tem as mesmas oportunidades que
nós e criarmos condições para um empoderamento que os permita ser sujeitos de
suas próprias histórias, é que vamos poder comemorar e dizer, com orgulho e
alegria, que construímos um Brasil onde todos têm, de fato, seus direitos e sua
dignidade preservados.
[Texto publicado no site Causas Perdidas]
[Texto publicado no site Causas Perdidas]
Nenhum comentário:
Postar um comentário