domingo, 4 de maio de 2014

Eutanásia: sujeito, autonomia e os dilemas da Bioética



“Viver é um direito, não uma obrigação”
(Ramón Sanpedro)

A bioética é um campo de conhecimento que se constitui como o estudo sistemático da conduta humana, examinando-a na área das ciências da vida e dos cuidados da saúde a partir de valores e princípios morais socialmente estabelecidos. Ela é a resposta da ética aos novos casos e situações originários da ciência no âmbito da saúde. Não pretende propor novos princípios éticos, mas procura repensar a ética dentro do âmbito da saúde tendo em vista o ser humano e seus dilemas.
Sendo, então, a bioética, o estudo das questões éticas, sociais e filosóficas presentes na saúde, é assunto que deve ser debatido com seriedade pelos profissionais da saúde uma vez que, nas práticas do dia-a-dia, estes se confrontam com essas questões. Por trás dos discursos acerca do que deve ser feito para o bem de um paciente (seja o discurso de um médico, de um psicólogo, de um fisioterapeuta, enfim, de qualquer profissional da saúde) há sempre um discurso ideológico que explicita a relação de poder entre profissional e paciente e que afeta diretamente a vida de pessoas que, muitas vezes, já estão submetidas à maior ou menor grau de institucionalização. Para além da questão do que é certo e o que é errado, ao falar em bioética se está falando sobre autonomia, vontade e liberdade de um outro ser humano.
Um dos assuntos mais debatidos pela bioética é a eutanásia. Eutanásia, do grego, eu=boa e thanatos=morte, significa boa morte, sem sofrimento, sem dores e angústias, em paz. O termo, claro, passa por uma evolução no decorrer da história. No período greco-romano, a eutanásia tratava da ritualização da morte como um dos grandes acontecimentos da existência humana. A partir das ideias de Francis Bacon, o termo ganha um novo sentido e falar de eutanásia é falar de uma eutanásia medicalizada que pretende prestar atenção em como o enfermo pode deixar a vida de maneira mais fácil, um tratamento adequado às doenças incuráveis. Durante o pós-Guerra, por fim, surge a caracterização da eutanásia autônoma tal qual é atualmente debatida, que diz respeito às discussões centradas no direito dos enfermos de decidirem sobre o seu morrer e ao não prolongamento de seu sofrimento. Diferente dos dois momentos anteriores, onde o desejo do paciente ficava sempre em segundo plano, submetido à decisão de terceiros por motivos sociais, políticos, médicos, eugênicos, o entendimento mais recente acerca da eutanásia está baseado no princípio da autonomia e do respeito aos direitos dos enfermos enquanto sujeito de sua própria vida e morte.
Vista por alguns como um suicídio assistido, a eutanásia diz respeito a uma situação em que o paciente quer morrer mas, por alguma incapacidade física, não consegue realizar sozinho o seu desejo, necessitando de alguém que o assista na tarefa de dar fim à vida. No Brasil, a eutanásia se enquadra na tipificação de homicídio e, apesar da lei não faz qualquer referência específica à ela, o ato é julgado pelo artigo 121 do Código Penal, que pune os crimes de homicídios. Entretanto, já existem projetos no Congresso que visam mudar essa realidade e, com a reforma do Código Penal que está em trâmite, espera-se que seja elaborado um parágrafo para tratar da eutanásia.
O filme “Mar Adentro”, de Alejandro Amenábar, mostra o drama de um homem que luta para ter o direito de pôr fim à sua própria vida. Ramón Sanpedro, interpretado por Javier Bardem, é um homem que, na juventude, sofreu um acidente mergulhando em um lago e quebrou o pescoço, lesionando a coluna e se tornando tetraplégico, condenado a ficar preso numa cama por 28 anos. Apesar de sua condição física, permaneceu completamente consciente e, sentindo que uma vida como a dele não fazia sentido, decidiu lutar judicialmente para ter o direito de colocar fim na própria vida. Para isso, ele contou com a ajuda de alguns amigos e de uma terapeuta militante na luta pela liberdade da escolher viver, mas enfrentou várias dificuldades para realizar seu desejo com a família, a sociedade e o Estado. O filme mostra de forma bem clara como a religião se utiliza de sua influência política para que a eutanásia não seja regulamentada por lei como uma prática válida. A ideia de que nossa vida não nos pertence e nosso corpo é sagrado faz com que a eutanásia pareça completamente absurda, porém, num Estado laico, é preciso estar atento para as influências religiosas que podem vir a afetar diretamente os direitos dos cidadãos.
Este é, com certeza, um assunto polêmico. Pensar na possibilidade de ter um ente querido que prefira a morte à vida nos parece devastador, portanto temos uma certa resistência em aceitar  ideia de ajudar outro alguém a se matar como algo razoável. Penso, porém, que é essencial que os profissionais da área de saúde tenham sempre em mente que o paciente, por mais que debilitado, é sujeito de sua própria história e tem direito a dar a última palavra sobre sua vida. Numa situação como a de Ramón, completamente incapaz de se mover, decidir sobre si mesmo é seu único ato de autonomia e tirá-la dele, impedi-lo de fazer a única decisão que ele pode fazer em nome de si mesmo, é o mesmo que arrancar à força sua dignidade e negar sua condição de ser humano: sem a capacidade de escolher e opinar sobre aquilo que afeta nossas vidas, o que nos resta?

[Texto publicado no site Causas Perdidas]

Nenhum comentário:

Postar um comentário