domingo, 4 de maio de 2014

21 anos do Massacre do Carandiru: o perigo de ver o outro como “não-pessoa”



Senhor Juiz, aqui existem seres humanos, estamos temporariamente impedidos de ir e vir. É inimaginável uma ressocialização de uma pessoa sendo trancafiada em celas superlotadas, comendo uma alimentação repugnante, sendo medicados apenas com Paracetamol e Dipirona. Por favor, faça alguma coisa, humanize o nosso tratamento, para que possamos ter condições de mudar de vida.” Esse é o final da carta que os presos do Presídio Regional Nilton Gonçalves, em Vitória da Conquista, Bahia. A carta explicita as condições desumanas em que se encontram os presos e pede que sejam solucionados os problemas básicos que impossibilitam que haja a ressocialização, objetivo fim da pena de prisão – pelo menos, teoricamente.
O Brasil tem um déficit de vagas no sistema prisional que chega a 48%. Sendo assim, em praticamente todos os presídios do país, os internos vivem em condições degradantes e são jogados em verdadeiros depósitos de pessoas para que sejam afastados da sociedade e sejam punidos por seus crimes. Até aqui, certo. Para que haja ordem social é necessário que as pessoas respeitem as leis e, quando não as respeitarem, é necessário que sejam responsabilizadas por seus atos. Não entrarei no mérito de discutir se a prisão é ou não a melhor forma de responsabilizar criticamente alguém pelos erros que cometeu ou se é somente um movimento de expulsar de perto de nós aquilo que pode nos mostrar nossa própria responsabilidade; esse assunto tomaria tempo demasiado e fugiria da proposta desse texto.
O fato é que 446 mil pessoas estão, por diversos motivos, privadas do direito de ir e vir e vivendo absolutamente sem dignidade, enfiadas em celas minúsculas com tanta gente dentro que é preciso revezar turnos entre quem dorme em pé e quem dorme sentado. Sem dignidade, sem respeito e excluídos da sociedade, é difícil ver qualquer possibilidade real de mudança que faça florescer nessas pessoas o sentimento de comunidade que queremos que nelas floresça; é no mínimo incoerente esperar civilidade daqueles que tratamos com incivilidade.
Dentro desse contexto de violação de direitos – legitimada pelo imaginário social e por um Estado ausente -, um episódio marca o ápice da desumanidade, e ele não vem dos “bandidos” que trancafiamos. A 02 de outubro de 1992, a Polícia Militar do Estado de São Paulo, liderada pelo comandante Ubiratan Guimarães, entrou no Pavilhão 9 da Casa de Detenção – o Carandiru e, em uma ação brutal e covarde, assassinou 111 detentos para “acalmar a rebelião que tomava conta do pavilhão”. Nenhum policial foi morto, e sobreviventes afirmam que a PM atirou contra “inimigos” desarmados e, inclusive, já rendidos. O ataque da polícia não foi uma ação para controlar uma rebelião. Foi a execução de cento e onze pessoas que não tinham meios para se defender. Pais, irmãos, maridos, filhos, vítimas de um dos massacres mais violentos da história do país.
Legenda: Implosão do Complexo do Carandiru, em 2002. O prédio caiu, mas a lógica continua a mesma.
Agora, em 2013, 23 policiais militares foram condenados a 156 anos de prisão pelo massacre, e outros 25 receberam pena de 624 anos. A defesa dos policiais envolvidos afirma que eles estavam cumprindo ordens, e quebrar a hierarquia da polícia seria impossível. Vejamos, pois: eles estavam cumprindo ordens. Isso me lembra de Eichmann, o nazista responsável por mandar os trens para Auschwitz, que também só estava cumprindo ordens. O caso aqui é extremamente complexo pois existe, de fato, uma hierarquização dentro da lógica militar que esmaga qualquer tentativa do sujeito de ser sujeito (o que nos leva a pensar na proposta de desmilitarização da polícia como algo bastante interessante). Porém, somos responsáveis pelas nossas ações. Cumprindo ordens ou não, não é cabível eximir a responsabilidade de alguém por seus atos (notem: falo em responsabilidade, e não culpa, pois a “culpa” impossibilita qualquer entendimento mais profundo da questão). Mas continuemos. Eles estavam cumprindo ordens. De quem? Do Coronel Ubiratan que, morto, não pode dizer nada sobre o caso? Do Governo de São Paulo, ao qual a Polícia Militar está submetida? Se formos analisar essa cadeia, veremos que a responsabilidade, então, é dos policiais, do coronel, do secretário de segurança, do governador... nossa? Dos eleitores que colocaram no poder políticos que criaram uma estratégia de segurança pública que possibilita acontecimentos como esse?
Tão complexa essa questão... O fato é que 111 pessoas foram assassinadas. Hoje, 21 anos depois, esperaríamos que as coisas estivessem diferentes, mas estão? Impossível mudar essa realidade se não mudarmos a lógica que rege a maneira de nos relacionarmos com os presos e com o crime. Enquanto enxergarmos o preso como uma “não-pessoa”, continuaremos a legitimar atos tão covardes quanto esses, continuaremos a não nos importar tanto com massacres como esses. Quando assassinaram o Coronel Ubiratan, picharam em um muro a frase “aqui se fez, aqui se paga”. Ele matou, ele morreu. O problema é que, se pensarmos assim, não há também porque se comover com as mortes do 111 detentos que, pagando sua dívida para com a sociedade, foram impossibilitados de ser reinseridos à ela: no olho por olho, dente por dente, acabaremos, ao fim, todos mortos.

[Texto publicado no site Causas Perdidas]

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