domingo, 4 de maio de 2014

Mary Del Priore fala sobre o machismo da mulher brasileira

Texto escrito em parceria com Renato Drummond Tapioca Neto

Mary Del Priore é uma das historiadoras de maior sucesso entre o grande público. Por sua escrita leve e, em muitos casos, direta, ela atrai as pessoas com muita facilidade para os temas sobre os quais ela discorre em sua extensa bibliografia. Na análise de seus textos, o que fica evidente é que a preocupação dessa autora não se pauta em um discurso extremamente teórico e academicista, mas sim voltado ao diálogo direto com o leitor, independentemente de ele estar familiarizado com o tema ou não. Ao percorrer as páginas dos livros dela, o indivíduo poderá perceber um forte discurso feminista por parte da autora, especialmente em obras como História das Mulheres no Brasil (vencedor dos prêmios Jabuti e Casa Grande & Senzala) e Histórias Íntimas, publicados em 1997 e 2011, respectivamente. O sexo, por sua vez, é outro assunto bastante recorrente nos escritos de Priore, sendo este um dos pontos que torna a sua produção, ao mesmo tempo em que polêmica, também desafiadora e deliciosa.
Para entender do que trata o discurso feminista da autora, é preciso ter em mente algumas questões.  A ideia de que o feminismo é o oposto do machismo é extremamente recorrente, apesar das inúmeras tentativas de feministas ao redor do mundo de explicar por que ela é equivocada. O machismo é o pensamento de que a mulher, por ser mulher, é inferior ao homem, e deve, portanto, se submeter a ele, não podendo ter acesso aos mesmos direitos e lugares sociais. O feminismo, por sua vez, é um movimento político que surge na luta pela igualdade de direitos para homens e mulheres e vem tentando reformular radicalmente as relações de gênero, baseando-se sempre no princípio da igualdade. “Ser homem” ou “ser mulher” são lugares sociais construídos, não naturais; portanto, não há coisas “para homens” e coisas “para mulheres”.
Tendo em vista, então, que o feminismo não é o oposto do machismo, não faz parte da lógica feminista repudiar os homens a priori, excluí-los ou limitar seus direitos. Como consequência dessa interpretação errada sobre o feminismo, vemos muitas vezes uma outra constatação equivocada, que é a de que somente os homens são machistas. Essa afirmação é demasiadamente simplista e desconsidera o fato de que o machismo é também construção social e histórica; é uma lógica que vem sendo assimilada há muitos séculos, e que tem se naturalizado como a única lógica possível para reger a sociedade ocidental moderna. A religião, em especial o cristianismo, muito tem a ver com a disseminação da lógica machista: desde o surgimento do cristianismo, tem-se acentuado a ideia da mulher como subserviente ao homem. Os textos sagrados fazem repetidas referências ao papel social da mulher como aquela que cuida dos filhos e, principalmente, aquela que serve ao marido. A própria história de Adão e Eva, em que Eva surge a partir de Adão, demonstra a mentalidade de que a mulher depende do homem, e este lhe é indispensável. Não é de se espantar, portanto, que uma sociedade majoritariamente cristã como a nossa reproduza esses discursos sexistas oriundos da religião.
Nota-se, então, que a cultura machista não é fruto de indivíduos machistas, mas de uma sociedade machista que vem reafirmando seus discursos seja no âmbito da religião, seja no âmbito profissional ou pessoal, como nota-se no fato de a mulher não receber o mesmo salário que o homem em diversos cargos, e também nas questões relacionadas à violência doméstica contra a mulher. Sendo assim, tanto um homem quanto uma mulher podem ser machistas – da mesma forma que ambos podem (e devem) repensar essa lógica e ultrapassar as relações sexistas que têm minado a liberdade da mulher. O fato é que sim, muitos homens são machistas, pois o discurso machista enaltece seu papel social, mas muitas mulheres também o são, muitas vezes sem perceber. Desde o momento em que uma mulher tem como meta de vida casar e ter filhos simplesmente porque uma normativa pré-estabelecida impõe isso e dita que é este o lugar que ela deve ocupar, até o momento em que ela chama de “vagabunda” a mulher que veste roupas curtas ou fala de sexo abertamente, essa mulher está sendo machista.
O machismo, enquanto lógica patriarcal que violenta a mulher física e psicologicamente, a diminuindo e a submetendo à vontade de um homem, ditando o que ela pode ou não fazer, como ela pode ou não falar, do que ela deve ou não gostar, como ela pode ou não ser, precisa ser combatido com todas as forças. Porém, é preciso ultrapassar a tentação de culpabilizar indivíduos por uma questão social. É claro que, enquanto homens virem as mulheres como meros objetos à sua disposição, e as mulheres se aliarem ao discurso opressor, essa será uma tarefa difícil. Mas, mais do que isso, extinguir as diferenças de gênero que oprimem, especialmente, as mulheres, não depende somente de apontar dedos para esse ou aquele indivíduo que age de acordo com a normativa machista. É por isso que este é um assunto tão delicado, polêmico e facilmente mal compreendido: para falar de machismo precisamos enxergá-lo como fato social, estando ele imerso em nossas instituições e relações sociais; a própria Família, que tanto prezamos, em nossa sociedade se baseia prioritariamente no papel do homem.
Para livrar a sociedade do machismo e garantir que a mulher tenha direito de ser o que quiser e fazer o que bem entender, pois é dona de si, do seu corpo e de sua vida, é preciso perceber quais os discursos que as próprias mulheres têm reproduzido sem se darem conta de que estão reafirmando uma lógica que diz que elas não valem tanto quanto os homens. Entretanto, não se pode perder de vista que discursos são construções históricas, e o machismo, sendo uma questão social, só será resolvido uma vez que sejam construídas novas possibilidades de discursos acerca dos modos de nos relacionarmos com nós mesmos e com os outros, de tal maneira que possa haver um debate que possibilite ultrapassar as dificuldades que encontramos hoje. Afinal, o objetivo do feminismo é este: que a mulher possa ser quem ela quiser – mãe, filha, casada, puta, patricinha, porra-louca, enfim, ela deve poder se livrar das amarras sociais e ser aquilo que, autonomamente, enquanto sujeito de sua própria história, ela escolher.
Del Priore, doutora em História Social pela USP, lançou uma nova biografia sobre a princesa Dona Isabel e seu marido, Conde D’Eu, intitulada O Castelo de Papel. Agora, ela publica pela editora Planeta mais um livro, chamado Histórias e Conversas de Mulher, no qual descreve os avanços femininos desde o século XVIII, passando pelo hipócrita século XIX, até chegar na sociedade atual. Em recente entrevista à BBC Brasil, para a série “100 Mulheres – Vozes de Meio Mundo”, ela discute conceitos como o machismo, e como as mulheres de hoje, muitas vezes, são as próprias responsáveis pela propagação dessa concepção arcaica. Não obstante, ela aponta as transformações no padrão comportamental feminino nas últimas décadas do século XX, além de muitos detalhes ligados à sua própria vida profissional e pessoal.
Confira agora essa incrível discussão, veiculada pelo portal IG:
BBC Brasil - Você vê traços de machismo ou preconceito em seus ambientes profissional e pessoal?
Mary Del Priore - No ambiente profissional, não vivi nenhum problema, porque desde os anos 1980 o setor acadêmico sofreu grande "feminilização". As mulheres formam um bloco consistente nas disciplinas (universitárias) mais diversas.
Mas, na sociedade, acho que o machismo no Brasil se deve muito às mulheres. São elas as transmissoras dos piores preconceitos. Na vida pública, elas têm um comportamento liberal, competitivo e aparentemente tolerante. Mas em casa, na vida privada, muitas não gostam que o marido lave a louça; se o filho leva um fora da namorada, a culpa é da menina; e ela própria gosta de ser chamada de tudo o que é comestível, como gostosa e docinho, compra revistas femininas que prometem emagrecimento rápido e formas de conquistar todos os homens do quarteirão.
O que mais vemos, sobretudo nas classes menos educadas, é o machismo das nossas mulheres.
BBC Brasil - Mas muitas até querem que os maridos ajudem em casa, mas será que essas coisas do dia a dia acabam virando motivos de brigas justamente por conta do machismo arraigado? E também há mulheres estudadas, ambiciosas e fortes - mas também vaidosas, que ao mesmo tempo querem se sentir desejadas por um parceiro/a que as respeite. Isso é uma conquista delas, não?
Del Priore - Ambas as questões não podem ter respostas generalizantes. Mais e mais, há maridos interessados na gerência da vida privada e na educação dos filhos. Quantos homens não vemos empurrando carrinhos de bebê, fazendo cursos de preparação de parto junto com a futura mamãe ou no supermercado? Tudo depende do nível educacional de ambos os parceiros. Quanto mais informação e mais educação, mais transparente e igualitária é a relação.
Quanto às mulheres emancipadas, penso que preferem estar sós do que mal acompanhadas. Chega de querer "ter um homem só para chamar de seu". Elas estão mais seletivas e não desejam um parceiro que queira substituir a mãe por uma esposa.
BBC Brasil - Como a mulher mudou – e o que permanece igual – no último século?
Del Priore - Temos uma grande ruptura nos anos 60 e 70 no Brasil, que reproduz as rupturas internacionais, com a chegada da pílula anticoncepcional. As mulheres começaram a ocupar postos nos diversos níveis da sociedade, a ganhar liberdade sexual e financeira. Ela passa atuar como propulsora de grandes mudanças. Quebra-se o paradigma entre a mulher da casa e a mulher da rua.
(Mas) a mulher continua se vendo através do olhar do homem. Ela quer ser essa isca apetitosa e acaba reproduzindo alguns comportamentos das suas avós. Basta olhar algumas revistas femininas hoje. Salvo algumas transformações, a impressão é de que a gente está lendo as revistas da época das nossas avós.
A mulher não consegue se ver fora da órbita do homem, diferentemente de algumas mulheres europeias, que são muito emancipadas. O que ela quer é continuar sendo uma presa desejada.
A (antropóloga) Mirian Goldenberg diz que a mulher brasileira continua correndo atrás do casamento como uma forma de realização pessoal. No topo da agenda dela não está se realizar profissionalmente, fazer o que gosta, viajar, conhecer o mundo – está encontrar um par e botar uma aliança no dedo. Mesmo que o casamento dure uma semana.
BBC Brasil - Quais as amarras das mulheres atuais?
Del Priore - O machismo é uma das questões. Outra, que talvez explique a inatividade da mulher frente a esse padrão, é que, com a entrada num mercado de trabalho tão competitivo, com tantas crises econômicas e uma classe média achatada, a luta pela sobrevivência se impõe sobre qualquer outro projeto.
Essa falta de tempo para respirar, o fato de ter que bancar filhos ou netos, isso talvez não dê à mulher tempo para se conscientizar e se erguer acima do individualismo – outra tônica do nosso tempo – e pensar no coletivo.
BBC Brasil - Ao mesmo tempo em que a mulher avança no mercado de trabalho, algumas também têm perdido a vergonha de parar de trabalhar para cuidar dos filhos; ou resgatado, como hobbies ou profissão, antigas "tarefas de mulher", como tricô, cozinha, artes manuais. Desse ponto de vista, existe um poder maior de escolha das mulheres?
Del Priore - Sempre apostei que as mulheres não deveriam buscar ser "um homem de saias", mas apostar em sua diferença e singularidade. As marcas do gênero, segundo sociólogos, são a criatividade, a diplomacia, capacidade de dialogar, etc. O fato de que elas busquem se realizar resgatando o trabalho doméstico, manual ou artesanal é uma prova de que a singularidade feminina tem muito a oferecer.
A mulher pode, sim, realizar-se através do trabalho doméstico e não necessariamente no público. Desse ponto de vista elas só estariam dando continuidade a uma longa tradição, discreta e oculta, que é a independência adquirida por meio de atividades desenvolvidas no lar. Nossas avós, quando trabalhadoras domésticas, já conheceram essa situação. A tecnologia só nos ajuda a torná-lo mais eficiente.
BBC Brasil - Que papel a educação teve na mulher que você é hoje?
Del Priore - Tive uma trajetória peculiar. Resolvi fazer universidade (aos 28 anos) quando já era mãe de três filhos. A maturidade me ajudou muito a progredir. Tive a sorte de ter na PUC-RJ e na USP um ambiente muito receptivo, porque era um momento em que a universidade estava largando aquela camisa de força marxista e se abrindo para estudos de cultura e sociedade, que me interessavam.
BBC Brasil - Quais os principais desafios que você enfrenta como mulher?
Del Priore - Hoje o grande desafio, em qualquer idade, é o equilíbrio interior, estar bem consigo mesma. Quando começamos a envelhecer – o que é o meu caso, aos 61 anos –, é preciso olhar isso com coragem, ver isso como um investimento positivo. E ter tempo para a família, para as pessoas em volta da gente.
Quando era mais jovem, eu me preocupava muito com grandes projetos. Hoje me preocupo com o pequeno – acho que é por aí que você muda a realidade. É no dia a dia, na maneira como você trata as pessoas à sua volta, no respeito que você tem pelo seu bairro. Não temos condições de abraçar o mundo. Através do micro, a gente consegue aos poucos transformar o macro.

[Texto publicado no site Causas Perdidas]

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