domingo, 4 de maio de 2014

Criticar sem conhecer: os mitos sobre o auxílio reclusão



Na internet, assim como no dia-a-dia, as pessoas adoram dizer que “têm vergonha do Brasil” quando veem alguma situação com a qual não concordam, especialmente quando se trata de políticas públicas que se dirigem a grupos mais desfavorecidos da sociedade. Tirando o fato de que a “vergonha do Brasil” deveria ser uma “vergonha de si mesmo”, pois os políticos estão lá porque nós os colocamos no poder e que quando falamos que “brasileiro é foda”, esquecemos de que somos, também, brasileiros, é preciso apontar um fator que permeia todos esses discursos que lamentam pelo nosso país: a desinformação está presente na maioria deles.
Quanto ao Programa Bolsa Família, o Causas Perdidas já fez diversas matérias explicitando vários dados que, confortavelmente, são retirados dos discursos daqueles que afirmam que o PBF é “um absurdo” e um “mecanismo para ganhar votos e nada mais”. Porém, esse não é o único programa ou iniciativa do governo que é mal visto por uma grande parcela da população. O Auxílio Reclusão é, talvez, até mais polêmico e odiado. Diz o senso comum que o absurdo está no fato de que “o preso ganha mais do que o trabalhador honesto”. Geralmente, a fala nas redes sociais vem seguida de uma imagem que mostra em letras garrafais: salário mínimo = R$678,00 auxílio reclusão = um valor que, normalmente, não chega perto do que é mostrado pelos dados oficiais do Ministério da Previdência Social: em 2012, foram pagos 33.544 benefícios pelo INSS; o dinheiro gasto para isso foi R$22.872.321, uma média de R$681,86 por família.
O auxílio reclusão é um benefício que existe há mais de 50 anos mas que, por algum motivo, passou a ficar na boca do povo há pouco tempo. Ele se destina a dependentes de trabalhadores(as) que contribuem para a Previdência Social que se encontram sob regime de privação de liberdade, ou seja, presos(as) – desde que este(a) não receba da empresa para  a qual trabalha nenhum tipo de remuneração ou auxílio. A pessoa presa não recebe nem um centavo do benefício, que vai diretamente para sua família com o objetivo de garantir sua sobrevivência enquanto o (a) provedor(a) do lar encontra-se ausente. Aqui já vemos que a ideia de que “o preso ganha mais que o trabalhador honesto” não passa de uma má interpretação do que é, de fato, o auxílio reclusão. Ainda, o benefício não é proporcional ao número de dependentes, o valor é dividido entre os dependentes, independentemente de quantos eles são. O que importa é a contribuição que o segurado fez à Previdência. Sendo assim, dizer que “eles [os presos] ganham montes de dinheiro porque, como são pobres, têm milhares de filhos”, além de ser extremamente preconceituoso e infundado, não condiz com a realidade do que diz a Lei Orgânica da Previdência Social. A existência do auxílio reclusão de baseia no princípio da proteção à família: se uma pessoa está impedida de trabalhar por estar presa, sua família precisa ter algum tipo de renda para sua sobrevivência e pode, por direito, ter acesso ao benefício para o qual a pessoa contribuiu. O auxílio é, portanto, uma garantia própria de um Estado democrático que se comprometeu, desde 1988, a zelar pela proteção da sociedade.
É preciso lembrar, também, que o benefício pode ser suspenso se o(a) segurado(a) for solto(a), tenha a pena progredida para regime aberto ou fuja. A família tem que apresentar, a cada três meses, nota do sistema penitenciário confirmando a condição de privação de liberdade do(a) provedor(a). Nota-se, então, que existe a condicionalidade do sujeito não fugir, o que mostra que não cabe dizer que, com o auxílio, o governo dá dinheiro indiscriminadamente, comprometendo os “trabalhadores honestos”.
Há quem diga, também, que “vale mais a pena” ir preso do que trabalhar de 8h às 18h. Mais uma vez, a fala é baseada em todas as falsas ideias que se tem acerca do auxílio reclusão e mostra, claramente, a absoluta falta de noção sobre o sistema prisional: achar que, realmente, é bom ser privado do direito de ir e vir, só pode ser ou uma frase de efeito cujo objetivo é chocar ou resultado de desinformação.
Uma vez que entramos em contato com as verdades sobre o auxílio reclusão e deixamos de lado os mitos que circulam pela internet, o benefício parece bem menos vergonhoso. Ele não diz respeito ao preso, nem dá uma recompensa àqueles que cometem crimes: ele representa, ao contrário, um compromisso com as famílias brasileiras cujas rendas foram impactadas pela prisão de um de seus membros provedores. Vergonhosa seria negligenciar a situação dessas pessoas e deixa-las totalmente desamparadas.
 
[Texto publicado no site Causas Perdidas]

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