domingo, 4 de maio de 2014

Marcelo Pesseghini, “psicopatia infantil” e estigma social



De tempos em tempos, um assunto polêmico é "elegido" para ser retratado nas mais diversas formas por reportagens, filmes, séries. Parece que a bola da vez é a tal da "psicopatia infantil". Uso aspas para falar dessa questão porque a expressão psicopatia infantil traz consigo diversas ideias pré-concebidas sobre psicopatia, infância, maldade, doença, transtorno - ideias essas que, na maioria das vezes, se pautam em nada mais, nada menos que o senso comum. Tudo bem, até aí não vejo tanto problema: o senso comum tem suas explicações sobre as questões que nos inquietam e não necessariamente elas são menos válidas por não caberem nas explicações que segue a lógica das ciências; o que me incomoda é a utilização de um suposto estatuto de cientificidade - principalmente das ciências psi - como maneira de fixar como verdade absoluta esses pressupostos e teorias que o senso comum estabelece.
Com o caso de Marcelo Pesseghini e o assassinato de seus pais policiais militares, o assunto vem à tona com uma força descomunal. Deixando de lado as circunstâncias duvidosas sobre o caso e a suspeita de Marcelo, um menino de 13 anos com fibrose cística, ter matado seus pais, sua avó e uma tia, e ter tirado sua vida após dirigir o carro da mãe para ir a escola (o Causas Perdidas já tratou desse assunto aqui*), vale a pena pensar sobre as explicações que temos dado ao caso. Por que será que temos essa urgência de culpabilizar alguém, acreditando no caminho mais fácil, reproduzindo cegamente o que é retratado pela mídia, ao invés de refletir sobre o que significa, de fato, admitir como verdade que Marcelo tenha matado os pais?
Uma coisa é certa: alguém matou aquelas quatro pessoas. Mas foi Marcelo? Independente de ter sido ele ou não, uma coisa é certa: a culpa já recaiu sobre ele e esse estigma perdurará para sempre. Mesmo estando morto, paira sobre ele a imagem da culpa, e essa marca nada tem a ver com ele ter ou não cometido o crime. Essa marca é a prova da necessidade que temos de rotular um indivíduo como O responsável, para que possamos dormir tranquilos. Temos a falsa ideia de que, uma vez escolhido o culpado, tudo está resolvido. Rotulá-lo como psicopata, então, é nada mais, nada menos que tentar naturalizar um acontecimento que foge ao nosso entendimento. É extremamente difícil admitir a ideia de uma criança cometer um crime tão brutal (e talvez essa dificuldade seja a própria prova de sua inocência). Crianças são frágeis, são pequenos serem em formação, sobre os quais temos grandes responsabilidades. Se ele é psicopata, é porque ele “nasceu assim”, ele é portador de algum tipo de distúrbio que o deixa fadado a ser alguém que não é capaz de viver em sociedade. Ele é irrecuperável. Sendo irrecuperável, não há nada que possamos fazer, não há sobre o que refletir. “Simplesmente é assim”, “era inevitável”. E, mais uma vez, nossas consciências podem ficar tranquilas, pois não podemos mudar o imutável.
Certo, Marcelo já morreu, isso não o afetará em suas futuras relações. Mas essa situação deixa clara também a falta de preocupação da mídia com as implicações que suas manchetes têm sobre as vidas as pessoas que são por ela apontadas como culpadas. Uma acusação de parricídio seria uma sentença de morte, suas relações estariam fadadas a se restringir a tão somente isso. Mesmo que isso não vá acontecer com Marcelo, uma pessoa não é somente sua forma física em corpo. Nossa existência também diz respeito à nossa memória, ao que deixamos para o mundo através do que fizemos, do que representamos para nossos amigos e familiares, aos locais pelos quais passamos e onde deixamos nossa marca. A memória de Marcelo vai estar para sempre manchada por esse episódio, ela vai, para sempre, carregar esse estigma social; será, em nossas memórias, apenas “o psicopata que matou seus pais”. Creio que essa seja a maior punição que alguém pode receber.

[Texto publicado no site Causas Perdidas]

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