De tempos em tempos, um
assunto polêmico é "elegido" para ser retratado nas mais diversas
formas por reportagens, filmes, séries. Parece que a bola da vez é a tal da "psicopatia infantil". Uso
aspas para falar dessa questão porque a expressão psicopatia infantil traz
consigo diversas ideias pré-concebidas sobre psicopatia, infância, maldade,
doença, transtorno - ideias essas que, na maioria das vezes, se pautam em nada
mais, nada menos que o senso comum. Tudo bem, até aí não vejo tanto problema: o
senso comum tem suas explicações sobre as questões que nos inquietam e não
necessariamente elas são menos válidas por não caberem nas explicações que
segue a lógica das ciências; o que me incomoda é a utilização de um suposto
estatuto de cientificidade - principalmente das ciências psi - como maneira de
fixar como verdade absoluta esses pressupostos e teorias que o senso comum
estabelece.
Com o caso de Marcelo Pesseghini e o assassinato de seus pais policiais
militares, o assunto vem à tona com uma força descomunal. Deixando de lado
as circunstâncias duvidosas sobre o caso e a suspeita de Marcelo, um menino de
13 anos com fibrose cística, ter matado seus pais, sua avó e uma tia, e ter
tirado sua vida após dirigir o carro da mãe para ir a escola (o Causas Perdidas já tratou desse assunto aqui*),
vale a pena pensar sobre as explicações que temos dado ao caso. Por que será
que temos essa urgência de culpabilizar alguém, acreditando no caminho mais
fácil, reproduzindo cegamente o que é retratado pela mídia, ao invés de
refletir sobre o que significa, de fato, admitir como verdade que Marcelo tenha
matado os pais?
Uma coisa é certa: alguém
matou aquelas quatro pessoas. Mas foi Marcelo? Independente de ter sido ele ou
não, uma coisa é certa: a culpa já recaiu sobre ele e esse estigma perdurará
para sempre. Mesmo estando morto, paira sobre ele a imagem da culpa, e essa
marca nada tem a ver com ele ter ou não cometido o crime. Essa marca é a prova
da necessidade que temos de rotular um indivíduo como O responsável, para que
possamos dormir tranquilos. Temos a falsa ideia de que, uma vez escolhido o
culpado, tudo está resolvido. Rotulá-lo como psicopata, então, é nada mais,
nada menos que tentar naturalizar um acontecimento que foge ao nosso
entendimento. É extremamente difícil admitir a ideia de uma criança cometer um
crime tão brutal (e talvez essa dificuldade seja a própria prova de sua
inocência). Crianças são frágeis, são pequenos serem em formação, sobre os
quais temos grandes responsabilidades. Se ele é psicopata, é porque ele “nasceu
assim”, ele é portador de algum tipo de distúrbio que o deixa fadado a ser
alguém que não é capaz de viver em sociedade. Ele é irrecuperável. Sendo
irrecuperável, não há nada que possamos fazer, não há sobre o que refletir.
“Simplesmente é assim”, “era inevitável”. E, mais uma vez, nossas consciências
podem ficar tranquilas, pois não podemos mudar o imutável.
Certo, Marcelo já morreu,
isso não o afetará em suas futuras relações. Mas essa situação deixa clara
também a falta de preocupação da mídia com as implicações que suas manchetes
têm sobre as vidas as pessoas que são por ela apontadas como culpadas. Uma
acusação de parricídio seria uma sentença de morte, suas relações estariam
fadadas a se restringir a tão somente isso. Mesmo que isso não vá acontecer com
Marcelo, uma pessoa não é somente sua forma física em corpo. Nossa existência
também diz respeito à nossa memória, ao que deixamos para o mundo através do
que fizemos, do que representamos para nossos amigos e familiares, aos locais
pelos quais passamos e onde deixamos nossa marca. A memória de Marcelo vai
estar para sempre manchada por esse episódio, ela vai, para sempre, carregar
esse estigma social; será, em nossas memórias, apenas “o psicopata que matou
seus pais”. Creio que essa seja a maior punição que alguém pode receber.
[Texto publicado no site Causas Perdidas]
[Texto publicado no site Causas Perdidas]
Nenhum comentário:
Postar um comentário