Ao ler a notícia sobre a morte de
Nelson Mandela, parei por um momento na rua para ter certeza de que tinha lido
corretamente. “Morre, aos 95 anos, Nelson Mandela, ex-presidente sul-africano”.
Era verdade: o homem que mudou o cenário político e social da África do Sul e passou
para o mundo inteiro suas ideias de justiça e seu discurso sobre igualdade e
amor havia, de fato, morrido. Com quase um século de vida, Mandela se vai, mas
fica: em todos os que continuam na luta por um mundo mais igualitário e unido,
Mandela vive.
A vida política de Mandela é marcada
por uma vontade inesgotável de justiça. Sua atuação enquanto presidente é,
também, alvo de críticas – afinal, Mandela também estava sujeito a falhas;
mistificá-lo, exaltando-o além do bom senso somente pelo fato de ele ter
morrido, parece-me sem sentido. Seria mais sem sentido ainda, porém, deixar de
falar da importância de sua luta; os avanços no que tange aos Direitos Humanos
não teriam sido tantos se não fosse por sua luta contra o apartheid, regime de segregação racial que devastou milhares de
vidas na África do Sul durante 46 anos e marcou para sempre a história do país.
Sob o preceito de que era preciso
proteger a elite branca europeia no país, em nome de “valores cristãos do que é
justo e razoável”, o apartheid foi o
ápice de uma segregação racial que já ocorria na África do Sul desde o período
colonial e marcou uma época de extrema violência e desigualdade. A maioria dos
africanos – negros – teve seus direitos negados enquanto uma minoria branca no
poder passou a separar geográfica e socialmente os negros dos brancos, dando
aos últimos acesso a melhor educação e saúde e retirando o direito de cidadania
dos primeiros. Como consequência dessa segregação, diversos grupos começaram a
se posicionar contra o regime, com protestos e revoltas que visavam dar fim ao
regime de segregação e instaurar democracia, justiça e igualdade no país.
Muitos líderes antiapartheid foram
detidos e é aqui que surge a figura de Mandela como um dos revolucionários que dedicaram
suas vidas à luta pela liberdade. Preso por 27 anos, Mandela é o ícone do
ativismo antiapartheid e é
reconhecido, na África do Sul e no mundo, como um dos nomes mais importantes da
história na luta pela garantia de direitos.
Apesar dos anos de luta de Mandela e
de sua belíssima e reverenciável trajetória, o fim do apartheid não pôs fim à desigualdade, ao racismo e à ideia de que
os brancos são melhores que os negros. Não só na África, mas no mundo todo, presenciamos
diariamente o racismo e a segregação; no Brasil, país composto majoritariamente
por negros, temos diversos exemplos de como o entendimento de que existe uma
raça “superior” que deve ser tratada de forma diferente das raças “inferiores”
representam, no dia-a-dia, violações de direito, humilhação e marginalização.
Porém ele mostrou que o impossível é
possível. Conseguiu fazer cair por terra um regime de segregação que durou
quase cinquenta anos. Uniu um país. Acreditou na capacidade do homem, deu sua
vida pela certeza de que a mão que destrói e separa pode ser a mesma mão que
constrói. Mudou a vida de milhares de sul-africanos e deixou para o mundo uma
mensagem tão importante que é somente através dela que seremos capazes de
alcançar a igualdade: se podemos aprender a odiar, podemos aprender a amar.
Mandela viverá enquanto honrarmos seus ensinamentos. Façamos, então, que ele
continue entre nós.
[Texto publicado no site Causas Perdidas]
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