domingo, 4 de maio de 2014

O pensamento vivo de Nelson Mandela



Ao ler a notícia sobre a morte de Nelson Mandela, parei por um momento na rua para ter certeza de que tinha lido corretamente. “Morre, aos 95 anos, Nelson Mandela, ex-presidente sul-africano”. Era verdade: o homem que mudou o cenário político e social da África do Sul e passou para o mundo inteiro suas ideias de justiça e seu discurso sobre igualdade e amor havia, de fato, morrido. Com quase um século de vida, Mandela se vai, mas fica: em todos os que continuam na luta por um mundo mais igualitário e unido, Mandela vive.
A vida política de Mandela é marcada por uma vontade inesgotável de justiça. Sua atuação enquanto presidente é, também, alvo de críticas – afinal, Mandela também estava sujeito a falhas; mistificá-lo, exaltando-o além do bom senso somente pelo fato de ele ter morrido, parece-me sem sentido. Seria mais sem sentido ainda, porém, deixar de falar da importância de sua luta; os avanços no que tange aos Direitos Humanos não teriam sido tantos se não fosse por sua luta contra o apartheid, regime de segregação racial que devastou milhares de vidas na África do Sul durante 46 anos e marcou para sempre a história do país.

Sob o preceito de que era preciso proteger a elite branca europeia no país, em nome de “valores cristãos do que é justo e razoável”, o apartheid foi o ápice de uma segregação racial que já ocorria na África do Sul desde o período colonial e marcou uma época de extrema violência e desigualdade. A maioria dos africanos – negros – teve seus direitos negados enquanto uma minoria branca no poder passou a separar geográfica e socialmente os negros dos brancos, dando aos últimos acesso a melhor educação e saúde e retirando o direito de cidadania dos primeiros. Como consequência dessa segregação, diversos grupos começaram a se posicionar contra o regime, com protestos e revoltas que visavam dar fim ao regime de segregação e instaurar democracia, justiça e igualdade no país. Muitos líderes antiapartheid foram detidos e é aqui que surge a figura de Mandela como um dos revolucionários que dedicaram suas vidas à luta pela liberdade. Preso por 27 anos, Mandela é o ícone do ativismo antiapartheid e é reconhecido, na África do Sul e no mundo, como um dos nomes mais importantes da história na luta pela garantia de direitos.

Apesar dos anos de luta de Mandela e de sua belíssima e reverenciável trajetória, o fim do apartheid não pôs fim à desigualdade, ao racismo e à ideia de que os brancos são melhores que os negros. Não só na África, mas no mundo todo, presenciamos diariamente o racismo e a segregação; no Brasil, país composto majoritariamente por negros, temos diversos exemplos de como o entendimento de que existe uma raça “superior” que deve ser tratada de forma diferente das raças “inferiores” representam, no dia-a-dia, violações de direito, humilhação e marginalização.
Porém ele mostrou que o impossível é possível. Conseguiu fazer cair por terra um regime de segregação que durou quase cinquenta anos. Uniu um país. Acreditou na capacidade do homem, deu sua vida pela certeza de que a mão que destrói e separa pode ser a mesma mão que constrói. Mudou a vida de milhares de sul-africanos e deixou para o mundo uma mensagem tão importante que é somente através dela que seremos capazes de alcançar a igualdade: se podemos aprender a odiar, podemos aprender a amar. Mandela viverá enquanto honrarmos seus ensinamentos. Façamos, então, que ele continue entre nós.

[Texto publicado no site Causas Perdidas]

Nenhum comentário:

Postar um comentário