Termino de ler o “Holocausto
Brasileiro” de Daniela Arbex e sou inundada por um desespero que poucas vezes
senti. Lendo as últimas 50 páginas do livro, não conseguia decidir se queria
ler até o final o excelente relato sobre o Colônia ou se preferia fechá-lo e
não saber mais das torturas, das tragédias, dos assassinatos
de 60 mil pessoas inocentes. Acabei lendo até o fim, pois percebi que é
exatamente isso o que um livro como esse se deve
fazer: sensibilizar, dar o choque necessário para que percebamos que não
podemos mais negar que, no Brasil, construímos nosso próprio campo de
concentração.
O Colônia, como era conhecido o
Hospital Psiquiátrico de Barbacena, foi o palco de uma das maiores tragédias da
história brasileira. Fundado em 1903, abrigou todo o tipo de indesejados:
prostitutas, órfãos, mulheres cujos maridos decidiram fugir com a amante ou que
desobedeciam a seus homens, andarilhos, doentes, homossexuais...
Por detrás dos portões do local que deveria cuidar de pessoas com distúrbios
psiquiátricos, estavam trancafiadas as vidas que, por um ou outro motivo, não
valiam nada. Mesmo que 70% dos pacientes não tivesse qualquer diagnóstico de
doença psiquiátrica, era preciso pouco para ser jogado no “trem dos loucos” em
direção à Barbacena. Sair do Colônia, porém, era bem mais difícil que entrar
nele e, uma vez lá dentro, o que se via eram fezes espalhadas pelo feno que
servia de cama para os internos, montes de cadáveres jogados pelo pátio,
grades, moscas, lobotomias, eletrochoques, tortura, sofrimento, dor, morte.
O livro narra detalhadamente as
histórias dos "ninguéns" que foram
esquecidos em Barbacena. É o caso de Dona Geralda, que aos 14 anos foi
estuprada pelo patrão na casa de família onde trabalhava e, quando o mesmo
descobriu sua gravidez, a despachou para o Colônia. Lá, teve seu filho, que
rapidamente foi levado para longe dela. Depois de 45 anos sofrendo por não
saber sequer onde estava seu menino, os amigos do Batalhão de Bombeiros onde o filho João Bosco trabalhava localizaram Geralda e promoveram o encontro dos dois.
Sueli Rezende, que também deu à luz dentro do Hospital, teve sua filha tomada
de si e morreu antes de poder reencontrá-la. Quando estava grávida, passava
fezes sobre a barriga para que os funcionários não chegassem perto dela e de
sua criança. Passou a vida inteira falando da filha, e não havia um ano sequer
em que não se lembrava de seu aniversário. Sônia Maria da Costa, que conseguiu
sair do Colônia e ir para uma residência terapêutica, às vezes usa dois
vestidos; quer se certificar de que está com roupas, já que passou anos andando
nua dentro do Hospital.
Após ter contato com todas essas histórias, me surpreende que sejamos capazes de chamar de
loucos as vítimas desse genocídio, e não o sistema doente que fez com que fosse
possível que, por anos, o Colônia continuasse matando e torturando milhares de
pessoas a seu bel -prazer. O
Hospital de Barbacena representa toda uma ideologia medicalizante,
patologizante e excludente que convenientemente esquece que ser louco ou normal
é uma questão de perspectiva. O “Holocausto Brasileiro” cumpre seu papel de
mostrar que o louco, tão temido por nós, “normais”,
sofre lucidamente as mazelas da exclusão que lhes
impusemos. 60 mil morreram em Barbacena, sem contar os que morreram
simbolicamente desde o instante em que foram jogados naquele depósito de gente.
Daniela Arbex revive aqueles que tentamos calar e mostra que, por trás da
loucura, há gente e por trás da morte, há a vida pela memória que se perpetua.
[Texto publicado no site Indique Um Livro]
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