Existe
um monólogo da razão sobre a loucura, já dizia Michel Foucault. A loucura tem sido, há muito tempo, silenciada
pelo discurso racional: partimos do pressuposto de que o louco não tem o que
acrescentar, pois sua experiência, muitas vezes, não faz parte da realidade
compartilhada por nós, pessoas “normais”.
Porém,
é importante ter em mente que, como qualquer fenômeno humano, a loucura é
historicamente construída. De acordo com cada época, com cada contexto sociopolítico,
a loucura é definida e compreendida. Entretanto, temos a tendência a pensar que
falar em loucura é falar em psiquiatria. Uma análise da história da loucura nos
mostra, entretanto, que a doença mental como expressão da loucura começou a
existir apenas em um determinado momento histórico. A constituição da loucura não
se dá a partir da psiquiatria, mas sim da divisão entre razão e não razão. Inclusive,
é por causa da loucura que a própria psiquiatria pode existir.
Durante
a Idade Média, a loucura era tida como parte da vida cotidiana, circulava
livremente pelas ruas. Após a epidemia de lepra e seu desaparecimento depois
das Cruzadas, os leprosários passam a conter pobres, vagabundos e “cabeças
alienadas”, dando início à tradição de excluir os loucos da sociedade. No
Renascimento, as conhecidas “Naus dos Loucos” navegavam com loucos a bordo dos
navios, levando-os para diversos lugares numa tentativa de mandar a loucura
para longe. No século XVII, a loucura se fixa no hospital. É importante
lembrar, contudo, que o hospital não tem o mesmo valor de “local de cura” que
temos hoje. Ele era um depósito no qual ficavam as pessoas indesejadas – dentre
elas, os loucos.
O
pensamento moderno, estruturado na sociedade burguesa que é voltada para a
razão, aprisiona filosoficamente a loucura; na filosofia cartesiana que embasa
essa sociedade, o eu que não pensa não existe, e, se o louco não é dotado de
razão, não existe e pode ser excluído, jogado num Hospital Geral - estrutura
semijurídica que decide, julga e executa. Nessa época, a religião se apropria
da loucura de maneira ambígua, explicitada no binômio desejo de ajudar x necessidade de punir, dando a ela um caráter
moral que justifica os trabalhos forçados nos hospitais. O objetivo desses
trabalhos era criar um “sábio arrependimento” que auxiliasse na superação da
condição de loucura, mas sempre dialogando fortemente com ideias de repressão.
No
século XVIII, a loucura fica melhor delineada como manifestação do não ser. A
sociedade teme que esse desatino a contamine e continua acorrentando seus
loucos aos hospitais gerais, com o objetivo de proteger a sociedade da possível
ameaça da loucura. Creio que esse tenha sido o período histórico em que a
loucura foi tratada de maneira mais grotesca, expondo-a em um espetáculo: a
ideia era mostrar a animalidade da loucura, na tentativa de atender a um desejo
da burguesia de exaltação da moral e da razão.
É
somente no século XIX que a loucura passa a ser objeto da psiquiatria. Até esse
momento, os loucos eram literalmente acorrentados nos hospitais, vivendo em
condições desumanas de saneamento e higiene. Médicos como Philippe Pinel foram responsáveis por desacorrentar os loucos, entendendo
que o louco é um doente, sendo, portanto, objeto de estudo da medicina. Porém,
é importante ressaltar que, apesar de a situação física em que viviam os loucos
ter sido muitíssimo melhorada a partir do entendimento do louco como um ser
humano com dignidade, começa-se a criar em torno do louco asilado um círculo
invisível de julgamentos morais. O hospital passa a ser um espaço de
observação, diagnóstico e terapêutica, mas não deixa de ser também um espaço
social onde o doente sofre um processo de acusação, julgamento e condenação. O
louco sente remorso por ser o que é, e assim não desacredita do discurso da
medicina que, dentro da lógica da exaltação da razão, silencia a loucura como
possibilidade de existência e apreensão do mundo – apesar de, em muitos casos,
ser boa a intenção do médico que quer curar o louco. O louco, por ser
considerado incapaz, delega ao médico o cuidado de si, ou seja, delega o saber
sobre si mesmo a outra pessoa, um especialista que, supostamente, sabe mais
sobre sua loucura do que ele próprio.
Como
foi dito, a concepção de loucura varia de acordo com o contexto histórico. Quando
falamos em loucura, percebe-se claramente que não há uma definição clara sobre
o que é ser louco. João Frayze-Pereira,
em seu livro “O que é loucura?”, traz
dados de uma pesquisa que fez com seus alunos de psicologia sobre o que é a
loucura. A loucura é vista de diversas formas: como perda da
consciência-de-si-no-mundo, como uma doença, como um distúrbio orgânico ou
desequilíbrio emocional que levam a um desvio de comportamento, como distúrbio
emocional cuja origem é o desajustamento social do indivíduo, como desvio
comportamental em relação a uma norma socialmente sancionada, como estado de
desligamento da realidade ou, por fim, como tomada de consciência de si e do
mundo. Eu, particularmente, vejo a loucura como uma possibilidade de ver o
mundo. A realidade existe para todos nós, mas cada um se apropria dela de uma
forma, de acordo com as experiências que tem no mundo e com os outros. Muitas
vezes, a loucura é a coragem da verdade de que Foucault fala: é deixa-se Ser,
independentemente das normas pré-concebidas; é “não ter medo de mostrar as
verdades para o mundo”, como diz Frayze-Pereira. Obviamente, essa forma de ser
traz sofrimento, uma vez que se espera que o louco compartilhe da maneira de
apreender o mundo que entendemos como “normal”. A ele é negada sua maneira de
existir, o que faz com que surja um sentimento de que ele não pertence a lugar
nenhum – sentimento este que é reforçado a cada vez que não reconhecemos o
louco como um agente de sua própria história e da história da sociedade,
dizendo que a loucura é somente uma doença que deve ser curada.
Não
podemos esquecer o que Foucault fala sobre a loucura no livro “Doença mental e psicologia”: “A doença
só tem realidade e valor de doença no interior de uma cultura que a reconhece
como tal.” Desta forma, é imprescindível ter sempre em mente que da mesma forma
que a loucura não existe sem a razão, nossa tão querida e cultuada razão também
não existe sem a loucura; as duas coexistem, em relação. A loucura está dentro
da razão, pois se caracteriza não pelos comportamentos do louco, mas pela
quebra das regras do que é considerado “normal”. Assim, o erro na conceituação
da loucura feita pelo discurso científico está em tomá-la como um fato em si
quando, na realidade, ela é essencialmente relacional e varia de acordo com o
contexto histórico.
[Texto publicado no site Causas Perdidas]
[Texto publicado no site Causas Perdidas]
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