segunda-feira, 22 de julho de 2013

20 anos da Chacina da Candelária: Recordar é resistir!


Rio de Janeiro, Julho de 2013. A PM reprime as manifestações no Palácio Guanabara com fuzis, armas de choque e gás lacrimogêneo com data de validade vencida. Dois repórteres da Mídia NINJA são presos por estarem transmitindo ao vivo na PósTv as manifestações; Amarildo, pedreiro, pai de 6 filhos, morador da favela, desaparece na Rocinha depois de ter sido levado pela polícia da UPP até a base do morro. No twitter oficial da PMERJ, lê-se que a ação da OAB atrapalha a ação policial e que os ninjas presos foram detidos por incitar a violência ao filmar e transmitir a manifestação. No Leblon, manifestantes protestam em frente a casa do governador Sérgio Cabral, vidraças são quebradas e a grande mídia, mais uma vez, tenta desesperadamente retratar os manifestantes como vândalos, televisionando a tristeza dos donos das lojas cujos vidros foram estraçalhados; enquanto isso, nada se fala sobre os abusos de poder do BOPE no Complexo da Maré. A periferia sofre com a violência institucional de todo dia. "Na favela, as balas não são de borracha."

Rio de Janeiro, Julho de 1993. Mais de 50 jovens dormiam nas escadas da Igreja da Candelária. Oito deles, dentre os quais estavam 6 menores de idade, foram assassinados: policiais militares abriram fogo contra as crianças e adolescentes que estavam dormindo, matando 4 no local, 1 enquanto tentava fugir, 2 executados no Aterro do Flamengo e 1 em decorrência dos ferimentos. Três PMs foram condenados pela chacina, e hoje estão livres. Outros seis foram absolvidos, apesar das evidências que os ligavam aos assassinatos. Quanto aos sobreviventes, esses são poucos, e suas histórias são marcadas pela injustiça, pela impunidade e pela violência policial. Wagner dos Santos sofreu uma segunda tentativa de assassinato em 1994, e vive sob proteção do Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas, com problemas de audição, perda parcial dos movimentos faciais e envenenamento por chumbo, decorrente dos oito tiros que tomou na Candelária, além de incontáveis sequelas psicológicas. Em uma operação contra o tráfico de drogas, Fabio Gomes de Azevedo foi assassinado pela Polícia em 1996. Sandro Barbosa do Nascimento perdeu a vida no ano 2000 durante o conhecido assalto ao ônibus 174. Elizabeth Cristina de Oliveira Maia foi morta também em 2000, pouco antes de depor contra policiais num processo judicial.

20 anos separam esses dois momentos históricos, e o cenário parece o mesmo: violência, repressão, manipulação, violação de direitos humanos, impunidade, perseguição da população negra, pobre e periférica, crueldade. Ainda assim, os governantes parecem insistir em reforçar a ação policial, se aproveitando do medo para legitimar ações violentas contra minorias.
A Chacina da Candelária não pode ser esquecida, e a conivência com a violência policial, mais que isso, a escolha por parte dos governantes de gerir uma polícia violenta em nome de uma determinada ordem social - ordem essa que se baseia na lógica da higiene social, precisa acabar. Escrevo esse post em homenagem a Paulo Roberto de Oliveira (11 anos), Anderson de Oliveira Pereira (13 anos), Marcelo Cândido de Jesus (14 anos), Valdevino Miguel de Almeida (14 anos), "Gambazinho" (17 anos), Leandro Santos da Conceição (17 anos), Paulo José da Silva (18 anos) e Marcos Antônio Alves da Silva (19 anos), covardemente assassinados nesse 23 de Julho de 1993, e a todos os que (sobre)vivem nessa corda bamba, entre a vida e a morte, por nenhum motivo maior do que aquilo que a muitos de nós é dado de bandeja: existir.

Gritamos por justiça ao mesmo tempo que clamamos por segurança, sem sequer perceber que em nome da segurança cometemos injustiças sem igual. 

terça-feira, 16 de julho de 2013

Advogada do diabo.

E quando a gente acha que as coisas não podem piorar, eis que surge uma matéria na Folha de S. Paulo sobre a psicóloga que dá cursos para mulheres que desejam "atrair um partidão". Ela cobra entre R$1.000 e R$12.000 pelos seus serviços - que são mais um des-serviço do que qualquer outra coisa. Seu curso começa com uma imagem que remonta às manifestações feministas em que as manifestantes queimam sutiãs, dizendo que é necessário ser tolerante e feminina se quisermos manter relacionamentos duradouros. Sim, ela acha o Feminismo intolerante e repudia o Movimento e todas as suas conquistas na luta por equidade de direitos para as mulheres; certamente ela não está preocupada com direitos, uma vez que vê as mulheres como "caçadoras de partidões. A digníssima chega ao absurdo de afirmar que, durante um jantar, não se pode comer muito, nem falar sobre trabalho (isso é coisa de homem). Mas não é só isso: não é recomendado falar diretamente com o garçom. Falando com o garçom, demonstramos ser "independentes demais", coisa que deve ser evitada, já que, para ela, mulher não é agente de sua própria história, e sim submissa aos "partidões". 
Além de machista, a "psicóloga" diz que costuma rejeitar gordos em sua agência (!!!!) - afinal, 50% das pessoas não querem parceiros acima do peso (os dados devem vir diretamente da Agência de Pesquisa Mais Preconceituosa Do Mundo). Então, para garantir seu partidão (o sonho de toda mulher), você deve ser magra, submissa, não falar do seu trabalho, ser tolerante... ah, sim, tem mais coisas: é preciso estar sempre maquiada ("cara limpa é desleixo", para ela) e usar salto alto - até na piscina e praia é preciso andar da ponta dos pés, para chamar a atenção e disfarçar as gordurinhas e celulites. E, é claro, não é permitido transar no primeiro encontro.
Como podemos ver, ela é contra a autonomia das mulheres, a favor da manutenção do ideal de beleza vigente, excluindo a possibilidade de felicidade para todas aquelas que não se enquadrarem nele, é reforçadora do modelo machista de relacionamentos em que as mulheres vivem em função de um homem que a sustente e proteja, já que ela é incapaz de cuidar de si e de sustentar, prega um discurso pudico e ultrapassado de que o desejo sexual da mulher está submetido ao do homem e ela deve manter a imagem de "santa". E ainda é psicóloga! Estudou 5 anos sobre a necessidade urgente de quebrar esses paradigmas patriarcais e sexistas, mas tem como objetivo de vida reforçá-los e ganhar dinheiro com ele.

Isso é absurdo, e não podemos esquecer: a pior coisa que pode acontecer é o oprimido trabalhar a favor do opressor.