Stephen Fry é ator, apresentador de
TV, comediante e ativista pelos direitos dos homossexuais. No documentário Out There, em exibição pela BBC no Reino
Unido, Fry mostra o que é ser gay em diferentes lugares do mundo, discutindo os
efeitos devastadores da homofobia. Além de Uganda, onde ser gay pode passar a
ser crime com pena capital, o Brasil foi um dos países escolhidos para o
documentário. Longe de ser motivo de alegria, a escolha do nosso país se dá ao
fato de o Brasil ser fortemente marcado pela homofobia e seu alto índice de crimes
contra a população LGBT.
Ao chegar ao Rio de Janeiro, Fry
entrevista Angélica, mãe de Alexandre Ivo, que aos 14 anos foi sequestrado e
torturado por um grupo de skinheads,
no ano de 2010, antes de ser enforcado com sua própria camiseta. O motivo de
sua morte foi um só: ele parecia ser gay. Angélica mostra o quarto de
Alexandre, intacto, e enquanto cheira as roupas do filho – tudo que restou dele
– fala da saudade que sente e de como sua morte foi resultado de nada mais além
de intolerância, preconceito e homofobia. Seu relato é emocionante e mostra
que, apesar de haver um grupo ultraconservador cristão de direita no Brasil que
nega a homofobia como uma questão séria e trava batalhas para garantir que os
gays continuem marginalizados, nosso país tem um sério problema com a homofobia
e é preciso começar a agir para acabar com essa mentalidade. Afinal, a
homofobia não é simplesmente uma ideia a ser combatida, é uma ideologia com
consequências reais que causam, por exemplo, a morte brutal de pessoas como
Alexandre.
Representando a classe política da
extrema direita, Jair Bolsonaro (PP-RJ) fala sobre seu discurso explicitamente
anti-gays e sua luta para que não seja aprovada uma lei que considere a
homofobia um crime, bem como seu posicionamento contra a iniciativa de
implementar um ensino infantil inclusivo e igualitário que reflita sobre os
danos da homofobia e trate a diversidade sexual com respeito, alegando que tal
iniciativa “incitaria o homossexualismo (sic)”. Eu poderia dizer aqui sobre
porque o que Bolsonaro defende não tem embasamento na sociologia, na
psicologia, no direito ou nos princípios dos Direitos Humanos. Poderia fazer
uma lista de colocações que fariam seu discurso em nome de uma suposta moral
sucumbir e aparecer como a barbárie que de fato é. Decidi, porém, por uma outra
abordagem. Uma abordagem mais pessoal que possibilite que eu compartilhe como
foi, para mim, a experiência de assistir a esta entrevista.
Ouvir Jair Bolsonaro falar é difícil.
É difícil porque, por mais que eu tenha claro para mim que o que ele fala não
passa de preconceitos ligados a um discurso religioso arcaico e a uma ideia de
“família” que não mais se sustenta dos dias atuais, sua fala mostra que existe
um conjunto de ideias acerca da homossexualidade que é totalmente divergente do
meu conjunto de ideias, vai contra tudo o que acredito, e confrontar o
diferente é sempre tarefa árdua. Mais do que isso, o discurso de Bolsonaro me
envergonha, porque representa uma parcela da população que faz parte da mesma
sociedade que eu e você, e nós, enquanto sociedade, temos que
encontrar meios de construir juntos uma sociedade democrática. Mas como
construir uma sociedade democrática se há essa parcela da população que crê
fervorosamente que a sua sexualidade faz de você uma pessoa mais digna que
outras? Ouvir Bolsonaro dizer que “a sociedade brasileira não gosta de gays” me
revolta, pois ele generaliza uma representação que é dele e fala como se representasse
todos os brasileiros, enquanto que, na verdade, representa uma parcela deles
que, por diferentes motivos, acredita que é mais humana que todos os que pensam
diferente e que têm um “dever moral” de prezar pelos “bons costumes”; ele pinta
um Brasil homofóbico porque só consegue ver a partir de sua própria homofobia. Escutar
ele dizer que “não existe homofobia no Brasil” e que não há, também, grupos que
perseguem homossexuais, me faz sentir raiva e pensar em todas as pessoas que
andam o dia inteiro com medo – medo de ser assassinado, de apanhar, de ser
rejeitado – por serem quem são, que sofrem com a terrível violência dos
intolerantes que, mesmo que não se caracterize como violência física, agride,
fere e deixa marcas doídas, que se submetem a torturas psicológicas de
parentes, vizinhos e das pessoas em geral, pessoas essas que, por dificuldades
pessoais em aceitar a homossexualidade, se sentem ofendidas pela sexualidade do
outro e, num jogo baixo e vil, culpabilizam o outro por suas próprias
limitações. É preciso muito descaso para dizer que não há homofobia no Brasil,
pois dizê-lo é o mesmo que admitir que a vida do outro não importa. Negar o
inegável é nada mais, nada menos, afirmar que não há nada que se possa fazer
para mudar a realidade e, sendo assim, que devemos nos acostumar com a
barbárie. O que Bolsonaro faz, ao discursar sobre como precisamos lutar “pela
família, pela moral, pelos bons costumes e pelas pessoas de bem”, palavras que
me dão agonia, pois representam a justificativa para a violação de direitos, é
também um assassinato homofóbico, pois não são necessárias armas para matar
alguém: a morte simbólica é também morte, na medida em que se mata a
possibilidade de alguém exercer sua cidadania.
À fala de Stephen Fry, que comenta que
há 480 espécies de animais que apresentam comportamento homossexual e somente
uma que apresenta comportamento homofóbico, Bolsonaro nada tem a dizer e,
mudando de assunto, começa a falar sobre como nenhum pai teria orgulho de ter
um filho gay. Essa é mais uma passagem que me incomoda tão profundamente que é
quase automático apertar o pause para
dar uma respirada. Por que ser gay seria motivo de desgosto para qualquer pai?
Por que a sexualidade de alguém é relevante no que tange a ser ou não motivo de
orgulho? Por que ela seria uma qualidade ou um defeito? Como é prejudicial esse
raciocínio... e são tantas as pessoas que sofrem porque seus pais, assim como
Bolsonaro, não veem nada de bom em seus filhos por terem internalizado a ideia
de que ser gay é o pior defeito e nada de bom pode haver em pessoas assim...
A expressão de Fry nesse momento é de claro desconforto e indignação. Ele
comenta que esse encontro com Bolsonaro foi um dos mais sinistros que ele já
teve na vida e, inclusive, tentou suicídio durante as filmagens, por ter que
ouvir o deputado falar tantas atrocidades com o maior ar de naturalidade. Só
posso mesmo imaginar o quão duro deve ser alguém desqualificar assim a sua
maneira de ser.
Falando sobre a ideia de fazer uma
“passeata do orgulho hetero”, Bolsonaro finaliza a entrevista às gargalhadas. Com
essa ideia de que os gays querem dominar a sociedade e fazer todos virarem
gays, reproduzindo uma ignorância e um medo oriundos de um fundamentalismo
religioso, Bolsonaro é igual a todos os homofóbicos mundo afora: incapazes de
lidar com seus limites e seus medos, veem o outro como uma afronta, como algo
que deve ser combatido. Ainda agora sua risada ecoa na minha cabeça e me
assombra, pois me faz ver aquilo que gostaria que não fosse verdade; é a
afirmação máxima de que o Brasil é, de fato, um país homofóbico.
Assista aqui (http://www.youtube.com/watch?v=9TiqyO5JQZs) a um trecho da entrevista de Fry com
Bolsonaro e a mãe de Alexandre.
O documentário completo pode ser
acessado através do link http://www.bbc.co.uk/programmes/p01fttn0
[Texto publicado no site Causas Perdidas]
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