domingo, 21 de abril de 2013

Carandiru: 20 anos depois...

20 anos depois do massacre que tirou a vida de 111 pessoas no Carandiru, tem fim o julgamento dos policiais que deixaram essa mancha na história do nosso país. 23 policiais foram condenados a 156 anos de prisão cada pela morte de 13 detentos. Lendo os depoimentos, especialmente o de um dos sobreviventes, fica claro que uma verdadeira chacina aconteceu naquele 2 de outubro de 1992. Foi crueldade pura e simplesmente, crueldade esta que reflete como é urgente uma discussão sobre direitos humanos, seja junto à polícia, seja junto à sociedade civil.
20 anos parece um tempo demasiadamente grande de distância entre um acontecimento hediondo desses e o julgamento dos responsáveis. Mas, como disse Sakamoto, a demora se deu pelo simples fato de que nós não estavávamos a fim de ver um espelho no banco dos réus.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A falta de lógica da pena de morte.

É difícil falar de Direitos Humanos sem parecer falso moralista. É difícil também abordar o tema sem que um mundo de gente acuse você de um mundo de coisas. Os argumentos daqueles que acham que "Direitos Humanos são uma bobagem" e que, por exemplo, "lugar de bandido é na cadeia" podem parecer, à primeira vista, logicamente viáveis. Entretanto, um olhar um pouco mais atento mostra que a lógica rapidamente se desfaz. Usemos como exemplo o argumento "quero ver se um bandido matar alguém que você ama, se você vai defender os direitos dele". Passar por uma situação trágica de perder alguém querido deixa marcas e dores profundas. Vivemos o luto com dificuldade tremenda, buscando uma explicação que nos conforte. Não suportamos a ideia de que alguém seja capaz de chegar ao máximo da violação de direitos, que é a violação do direito à vida. Para muitas pessoas, a solução para isso é a pena de morte. Pensemos, pois: nos parece insuportável perder alguém que amamos; porém, por algum motivo, é perfeitamente aceitável que outra pessoa perca alguém que ela ama. Sim, pode parecer uma enorme novidade, mas pessoas que cometem crimes também têm pais, mães, filhos, esposas, maridos, amigos. Mais ainda: lutamos diariamente para que nosso direito de viver seja preservado e respeitado, porém queremos que isso seja alcançado a partir da violação desse direito de outras pessoas. Dizer que "essas pessoas não merecem seus direitos porque violaram os direitos dos outros" por si só já elimina qualquer possibilidade da pena de morte fazer sentido, pois, violando os direitos alheios, você, que defende essa lógica, automaticamente deveria admitir que deve perder seus direitos também, já que estará violando direitos. Não obstante, existe uma outra questão, bem mais simples que as anteriores: se você tem o direito de matar uma pessoa porque ela matou outra pessoa, é necessário admitir que outro alguém também pense como você, e, assim, mate você por ter matado essa primeira pessoa. Imaginem isso como um círculo infinito, em que todas as pessoas do mundo acabarão se matando, levando ao fim da raça humana. Isso faz algum sentido?
A ideia de que a prisão não ressocializa ninguém - que é a justificativa, muitas vezes, para a pena de morte - talvez tenha sua origem e explicação no fato de não haver, de fato, interesse em ressocializar ninguém. Buscamos bodes expiatórios que carreguem sozinhos a culpa e os punimos, num movimento de punição por punição que tem como objetivo acalmar um sentimento de vingança e nos isentar de uma culpa que é social, coletiva, e não individual.

sábado, 6 de abril de 2013

Repensar os relacionamentos.

Comédias românticas são um desfavor à humanidade, especialmente à nós, mulheres. Elas são a reprodução de um discurso machista sobre um amor inexistente que nos obriga a colocar relacionamentos acima de qualquer coisa e fazer nossa felicidade depender do sucesso amoroso. Praticamente, dizem que nós, mulheres, devemos aguentar todo tipo de idiotice e falta de respeito de todos os homens porque, no fundo, "ele te trata mal porque gosta demais de você e não sabe lidar com isso". O filme "Ele não está tão afim de você" é a única comédia romântica que tem um enredo que se aproxima minimamente da realidade e traz de maneira divertida a ideia de que devemos parar de nos enganar e encarar a verdade, que é que, muitas vezes, o cara não está interessado em você. Falo isso pra chegar uma reflexão importante: chegamos num ponto estranho em que as pessoas preferem ser infelizes a ficarem sozinhas. Que desde sempre existe uma pressão social estúpida para que principalmente as mulheres estejam sempre lindas e acompanhadas todos sabemos. Mas existe um limite aceitável de falta de amor próprio para cumprir exigências sociais como essa. As pessoas usam justificativas sentimentalóides sem sentido e ignoram completamente todas as atrocidades que o outro faz enquanto usa a infeliz como bola de pingue-pongue num joguinho sádico cujo único objetivo é satisfazer necessidades momentâneas de uma pessoa sem nenhuma noção do que é respeito. Na verdade, as pessoas não sabem explicar as coisas que sentem porque de fato não fazem a menor ideia do que sentem ou de porque estão com um sujeito que não tem nenhum interesse real em fazer parte de uma relação de cumplicidade e carinho. Elas continuam usando essas explicações metafísicas, falam de destino, de algo que acontece "lá dentro", ou qualquer outra coisa desse tipo porque meio segundo pensando "por que estou com essa pessoa?" vai fazer com que admitam que, na verdade, se deixaram levar por uma noção infantil de um amor romântico que não é real. E vão perceber que o único motivo real pelo qual estão com essa pessoa que pouco se importa com elas é por estarem procurando alguém que corrobore a visão pessimista e pequena que têm de si mesmas.
É urgente que as mulheres parem de depositar todas as suas expectativas de felicidade em relacionamentos e comecem a perceber que é, sim, e ótimo estar com alguém, mas, na maioria das vezes, ele não está, mesmo, tão a fim de você; e isso não é o fim do mundo, porque esse relacionamento que você está procurando nunca vai acontecer - porque ele não existe.