Rio de Janeiro, Julho de 2013. A PM reprime as manifestações no Palácio Guanabara com fuzis, armas de choque e gás lacrimogêneo com data de validade vencida. Dois repórteres da Mídia NINJA são presos por estarem transmitindo ao vivo na PósTv as manifestações; Amarildo, pedreiro, pai de 6 filhos, morador da favela, desaparece na Rocinha depois de ter sido levado pela polícia da UPP até a base do morro. No twitter oficial da PMERJ, lê-se que a ação da OAB atrapalha a ação policial e que os ninjas presos foram detidos por incitar a violência ao filmar e transmitir a manifestação. No Leblon, manifestantes protestam em frente a casa do governador Sérgio Cabral, vidraças são quebradas e a grande mídia, mais uma vez, tenta desesperadamente retratar os manifestantes como vândalos, televisionando a tristeza dos donos das lojas cujos vidros foram estraçalhados; enquanto isso, nada se fala sobre os abusos de poder do BOPE no Complexo da Maré. A periferia sofre com a violência institucional de todo dia. "Na favela, as balas não são de borracha."
Rio de Janeiro, Julho de 1993. Mais de 50 jovens dormiam nas escadas da Igreja da Candelária. Oito deles, dentre os quais estavam 6 menores de idade, foram assassinados: policiais militares abriram fogo contra as crianças e adolescentes que estavam dormindo, matando 4 no local, 1 enquanto tentava fugir, 2 executados no Aterro do Flamengo e 1 em decorrência dos ferimentos. Três PMs foram condenados pela chacina, e hoje estão livres. Outros seis foram absolvidos, apesar das evidências que os ligavam aos assassinatos. Quanto aos sobreviventes, esses são poucos, e suas histórias são marcadas pela injustiça, pela impunidade e pela violência policial. Wagner dos Santos sofreu uma segunda tentativa de assassinato em 1994, e vive sob proteção do Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas, com problemas de audição, perda parcial dos movimentos faciais e envenenamento por chumbo, decorrente dos oito tiros que tomou na Candelária, além de incontáveis sequelas psicológicas. Em uma operação contra o tráfico de drogas, Fabio Gomes de Azevedo foi assassinado pela Polícia em 1996. Sandro Barbosa do Nascimento perdeu a vida no ano 2000 durante o conhecido assalto ao ônibus 174. Elizabeth Cristina de Oliveira Maia foi morta também em 2000, pouco antes de depor contra policiais num processo judicial.
20 anos separam esses dois momentos históricos, e o cenário parece o mesmo: violência, repressão, manipulação, violação de direitos humanos, impunidade, perseguição da população negra, pobre e periférica, crueldade. Ainda assim, os governantes parecem insistir em reforçar a ação policial, se aproveitando do medo para legitimar ações violentas contra minorias.
A Chacina da Candelária não pode ser esquecida, e a conivência com a violência policial, mais que isso, a escolha por parte dos governantes de gerir uma polícia violenta em nome de uma determinada ordem social - ordem essa que se baseia na lógica da higiene social, precisa acabar. Escrevo esse post em homenagem a Paulo Roberto de Oliveira (11 anos), Anderson de Oliveira Pereira (13 anos), Marcelo Cândido de Jesus (14 anos), Valdevino Miguel de Almeida (14 anos), "Gambazinho" (17 anos), Leandro Santos da Conceição (17 anos), Paulo José da Silva (18 anos) e Marcos Antônio Alves da Silva (19 anos), covardemente assassinados nesse 23 de Julho de 1993, e a todos os que (sobre)vivem nessa corda bamba, entre a vida e a morte, por nenhum motivo maior do que aquilo que a muitos de nós é dado de bandeja: existir.
Gritamos por justiça ao mesmo tempo que clamamos por segurança, sem sequer perceber que em nome da segurança cometemos injustiças sem igual.

Já tinha lido antes, mas como até hj ninguém comentou.. eu tenho que dizer: excelente artigo! :)
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