O atual cenário político do Brasil
parece cada vez mais desanimador. Desvios de verba, projetos de lei sem pé nem
cabeça, Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Renan
Calheiros na presidência do Senado, falcatruas, roubalheira, mensalão,
licitações duvidosas, violações de direitos humanos... é tanta coisa ruim que,
de fato, desistir de fazer algo diferente parece o caminho menos doloroso.
Afinal, com tanta politicagem, o que podemos fazer, nós, meros cidadãos?
Gritamos aos quatro cantos
do mundo que nossos políticos são corruptos, que os partidos não nos
representam, que queremos uma reforma política. Clamamos para que eles, nossos
“representantes”, façam seu papel. Porém, algumas questões precisam ser
respondidas antes de mais nada: qual é o papel deles? Sabemos o que cobrar de
quem? Os políticos são os únicos responsáveis pelo nosso país? Será que nós,
enquanto parte interessada, não podemos efetivamente fazer alguma coisa, ao
invés de esperar no conforto do nosso lar que, um belo dia, eles tenham uma
crise de consciência capaz de fazê-los agir em prol de uma sociedade justa e
democrática?
Pois bem, vamos por
partes. A primeira coisa que precisamos fazer se quisermos construir um Brasil
diferente é conhecer quem são nossos políticos, o que eles deveriam fazer e
porque não o fazem. O Brasil está inserido num sistema de democracia em que
escolhemos representantes, e é uma República Federativa cujo sistema de governo
é o presidencialismo. Isso quer dizer que, em nosso país, estabeleceu-se que
esses representantes são eleitos por um determinado período de tempo, os
estados são relativamente autônomos e o presidente é chefe de governo e chefe
de Estado. Instituiu-se, ainda, que os poderes serão divididos em três
instâncias: Executivo (presidente da república, ministros, governadores,
secretários e prefeitos), Legislativo (deputados federais, deputados estaduais
e vereadores) e Judiciário.
É claro que, apesar da
divisão de poderes, a política democrática brasileira depende da interação
entre os três, e hoje em dia percebe-se que há insatisfação popular no que
tange à todos eles. Porém, em geral, a crise de representatividade se dá mais
fortemente no âmbito do poder Legislativo, o que faz com que seja de extrema
importância compreender o mesmo mais a fundo. Na instância federal, é o
Congresso Nacional a instituição responsável por aprovar leis e fiscalizar o
Estado. Ele é composto por duas Casas, a Câmara dos Deputados, onde ficam os
representantes do povo, e o Senado Federal, que abrange os representantes dos
estados. São eles, portanto, que apresentam projetos de leis e apreciam os
vetos presidenciais, ou seja, são eles os principais responsáveis pela
elaboração das leis que regem nosso país e garantem nossos direitos. É aí que
nós, brasileiros e brasileiras, estamos insatisfeitos. Muitas vezes acompanhamos
o Congresso Nacional numa aventura surreal de proposições de leis absurdas, e o
sentimento de impotência faz com que caiamos naquela velha lógica de que “a
política é assim mesmo e não há nada que possamos fazer” – essa grande inimiga
do progresso que serve somente para perpetuar a distorção do poder por parte
dos donos do Brasil.
Uma vez que conhecemos
qual é o papel dos nossos representantes, podemos então pensar em ações que
contribuam para um cenário político mais positivo. A participação popular é importante
na luta pela garantia de nossos direitos e da justiça social, é parte
integrante do que significa fazer política. A formulação de políticas públicas,
que são ações com o objetivo de mitigar ou eliminar um problema público,
depende dos poderes Executivo e Legislativo, conforme mostrado, e da
participação ativa da sociedade através do controle social. O controle social,
ou seja, a participação do cidadão na gestão pública, não se dá somente através
das eleições – e as urnas não são o melhor lugar para protestar. Presenciamos
nos últimos meses as manifestações de rua, que são uma maneira da sociedade
demonstrar insatisfação, mas não a única. A participação também pode se dar
através dos Conselhos Municipais, Estaduais e Federais, órgãos responsáveis por
propor estratégias e controlar as políticas setoriais, inclusive nos aspectos
econômicos (cada setor pode ter um Conselho, implementado por lei), de
audiências públicas e de encontros e conferências setoriais. Esses são caminhos
que nos ajudam a fazer parte da gestão da política, que nada mais é que a
gestão de nossas vidas.
O exercício da cidadania
não se dá a cada dois anos ao eleger um candidato. Pelo contrário, ele é uma construção
constante que parte do pressuposto de que a política não se faz apenas no nível
partidário, e sim no dia-a-dia. Se entendermos política como instrumento para a
resolução de conflitos acerca de questões que influenciam nossas vidas, o agir
político é qualquer agir do homem que vive em sociedade. Tudo que fazemos é
política. Desde ir votar até se inteirar dos problemas do nosso município;
desde ir pras ruas nas manifestações até assistir a TV Senado. Até mesmo não
querer saber de política é política. Uma vez que o posicionamento político é a
maneira de nos colocamos no mundo enquanto produtores de História, a política
permeia todas as nossas relações. E sendo assim, não há porque não buscar
sempre saber um pouquinho mais sobre como podemos manter a relação de tensão
necessária entre povo e Estado, de modo a garantir que nossos representantes
sejam, de fato, representantes da vontade popular.
[Texto publicado no site Causas Perdidas]
[Texto publicado no site Causas Perdidas]
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