domingo, 4 de maio de 2014

O resgate da memória na era da liquidez




“É preciso começar a perder a memória, mesmo que a das
pequenas coisas, para percebermos que é a memória que
faz nossa vida. Vida sem memória não é vida (...). Nossa
memória é nossa coerência, nossa razão, nosso sentimento,
até mesmo nossa ação. Sem ela, somos nada”.
(Luis Buñuel)

            Poucas coisas me fascinam mais que a complexidade de Ser humano. O processo de constituir-se humano perpassa as ideias de passado, presente, e futuro, uma vez que é constante. Dessa forma, nossa história se constitui a partir de uma grande mistura do que fomos, do que somos e do que seremos, sendo estas três instâncias indissociáveis. Entretanto, passado e futuro são tempos inventados por nós numa tentativa de compreender quem somos; são tempos que não existem. Não existem porque somente os acessamos a partir do hoje, do agora, em retrospectiva e em projeção. Não há passado, e sim uma representação, no agora, do que um dia foi passado. Da mesma forma, não há futuro, apenas um ser que, hoje, em prospectiva, vislumbra algo que pode vir a ser.
            O passado, mesmo sendo um tempo inventado que não existe por si só, sem o presente como mediador de sua compreensão, é parte importante na constituição de quem somos a partir da memória. É com a memória que nos reafirmamos como seres históricos que se constituem a cada dia, num processo que tem fim somente com a morte, nunca antes. É por isso que Merleau-Ponty faz questão de colocar, em seus escritos, a ideia de somos quem somos e, no instante seguinte, deixamos de ser quem éramos para sermos outra coisa, já que a cada vivência vamos nos fazendo.
            A memória é o que nos dá a certeza de que fomos relevantes. Ela nos faz retomar o que fizemos, quem fomos, com quem interagimos, e assim possibilita que nossas vidas tenham sentido. Porém, a memória também não existe como um ente solitário que paira sobre a vida humana, ela é evocada quando, através da linguagem, nos manifestamos. Seja pensando sobre o passado, seja falando dele, é a narrativa que dá sentido à memória. Daí entende-se que impossibilitar alguém de contar sua história caracteriza a violação de um direito, e que se ver incapaz de relacionar-se com seu passado traz sérias implicações no que tange a uma desterritorialização, um sentimento de não pertencer a lugar algum.
A partir da memória também construímos nossa identidade; falar em identidade é mais do que simplesmente responder à pergunta “quem sou eu?”. Sua constituição sofre influência dos outros, do meio, do grupo social em que estamos inseridos; mas a identidade de um indivíduo é, ainda, mais do que meramente produto de relações sociais: é também produtora de tais relações. Importante lembrar que a identidade não é algo pronto; estamos sempre nos reinventando. Existir é eterna transformação. Aí se encontra a importância da memória: como parte integrante de nossa identidade, é também a partir dela que nos posicionamos politicamente enquanto sujeitos ativos no mundo.
            A pós-modernidade, tão fortemente marcada por esse sentimento de deslocamento, de não pertencer, trava com a memória uma relação delicada. Numa era em que tudo é líquido, fluido, passageiro, a memória perde espaço - o que explica, pelo menos em parte, tal sentimento. Exemplo banal, mas que faz interessante paralelo entre a modernidade e a memória: antigamente, fotografias eram peças importantíssimas e de valor simbólico inestimável. Todo o processo de tirar uma foto, revela-la, ver o resultado, até que futuras gerações entrassem em contato com ela, era parte importante da constituição histórica de uma família. Cada fotografia era única e elas juntas contavam uma história, eram a materialização da existência das pessoas fotografadas; eram a memória impressa em um papel. Hoje, o que é uma foto? Apenas mais uma dentre as 400 que você pode tirar e apagar em um segundo em seu smartphone. Não há mais o estabelecimento de um vínculo com o que aquela imagem representa, pois ela não representa nada. É só mais um arquivo digital ocupando espaço no seu HD.
            Aponto aqui um perigo que se corre dentro dessa lógica de que as coisas não duram no tempo e podem ser facilmente descartadas ou substituíveis: se esquecermos de quem fomos, não saberemos quem somos. Não digo isso num sentido nostálgico, nem determinista – muito menos moralista. Coloco essa fala com o intuito de reafirmar o caráter histórico da nossa constituição enquanto seres humanos. A lógica vigente prioriza tanto o individualismo que muitas vezes perde-se a dimensão de que a construção de quem somos se faz na relação com o Outro, num ciclo em que tudo que foi faz parte do que é a partir do momento que me lembro de algo e revivo esse algo. E aqui coloco, nas palavras de Ecléa Bosi, que lembrar é trabalho, é construção: “a lembrança é uma imagem construída pelos materiais que estão, agora, à nossa disposição, no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual”.
Sendo a memória construção indispensável para a elaboração de nossa identidade, e levando em consideração que a construção da identidade diz respeito a como nos posicionamos frente ao mundo, devemos atentar para essa tendência de diminuir a importância da memória. Afinal, como disse Buñuel, “sem ela, somos nada”.

[Texto publicado no site Causas Perdidas]

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