“É preciso começar a perder a memória, mesmo que a das
pequenas coisas, para percebermos que é a memória que
faz nossa vida. Vida sem memória não é vida (...). Nossa
memória é nossa coerência, nossa razão, nosso sentimento,
até mesmo nossa ação. Sem ela, somos nada”.
(Luis Buñuel)
Poucas
coisas me fascinam mais que a complexidade de Ser humano. O processo de
constituir-se humano perpassa as ideias de passado, presente, e futuro, uma vez
que é constante. Dessa forma, nossa história se constitui a partir de uma
grande mistura do que fomos, do que somos e do que seremos, sendo estas três instâncias
indissociáveis. Entretanto, passado e futuro são tempos inventados por nós numa
tentativa de compreender quem somos; são tempos que não existem. Não existem
porque somente os acessamos a partir do hoje, do agora, em retrospectiva e em
projeção. Não há passado, e sim uma representação, no agora, do que um dia foi
passado. Da mesma forma, não há futuro, apenas um ser que, hoje, em
prospectiva, vislumbra algo que pode vir a ser.
O
passado, mesmo sendo um tempo inventado que não existe por si só, sem o
presente como mediador de sua compreensão, é parte importante na constituição
de quem somos a partir da memória. É com a memória que nos reafirmamos como
seres históricos que se constituem a cada dia, num processo que tem fim somente
com a morte, nunca antes. É por isso que Merleau-Ponty
faz questão de colocar, em seus escritos, a ideia de somos quem somos e, no
instante seguinte, deixamos de ser quem éramos para sermos outra coisa, já que
a cada vivência vamos nos fazendo.
A
memória é o que nos dá a certeza de que fomos relevantes. Ela nos faz retomar o
que fizemos, quem fomos, com quem interagimos, e assim possibilita que nossas
vidas tenham sentido. Porém, a memória também não existe como um ente solitário
que paira sobre a vida humana, ela é evocada quando, através da linguagem, nos
manifestamos. Seja pensando sobre o passado, seja falando dele, é a narrativa
que dá sentido à memória. Daí entende-se que impossibilitar alguém de contar
sua história caracteriza a violação de um direito, e que se ver incapaz de
relacionar-se com seu passado traz sérias implicações no que tange a uma
desterritorialização, um sentimento de não pertencer a lugar algum.
A partir da memória também
construímos nossa identidade; falar em identidade é mais do que simplesmente
responder à pergunta “quem sou eu?”. Sua constituição sofre influência dos
outros, do meio, do grupo social em que estamos inseridos; mas a identidade de
um indivíduo é, ainda, mais do que meramente produto de relações sociais: é
também produtora de tais relações. Importante lembrar que a identidade não é
algo pronto; estamos sempre nos reinventando. Existir é eterna transformação.
Aí se encontra a importância da memória: como parte integrante de nossa
identidade, é também a partir dela que nos posicionamos politicamente enquanto
sujeitos ativos no mundo.
A
pós-modernidade, tão fortemente marcada por esse sentimento de deslocamento, de
não pertencer, trava com a memória uma relação delicada. Numa era em que tudo é
líquido, fluido, passageiro, a memória perde espaço - o que explica, pelo menos
em parte, tal sentimento. Exemplo banal, mas que faz interessante paralelo entre
a modernidade e a memória: antigamente, fotografias eram peças importantíssimas
e de valor simbólico inestimável. Todo o processo de tirar uma foto, revela-la,
ver o resultado, até que futuras gerações entrassem em contato com ela, era
parte importante da constituição histórica de uma família. Cada fotografia era
única e elas juntas contavam uma história, eram a materialização da existência
das pessoas fotografadas; eram a memória impressa em um papel. Hoje, o que é
uma foto? Apenas mais uma dentre as 400 que você pode tirar e apagar em um
segundo em seu smartphone. Não há mais o estabelecimento de um vínculo com o
que aquela imagem representa, pois ela não representa nada. É só mais um
arquivo digital ocupando espaço no seu HD.
Aponto
aqui um perigo que se corre dentro dessa lógica de que as coisas não duram no
tempo e podem ser facilmente descartadas ou substituíveis: se esquecermos de
quem fomos, não saberemos quem somos. Não digo isso num sentido nostálgico, nem
determinista – muito menos moralista. Coloco essa fala com o intuito de
reafirmar o caráter histórico da nossa constituição enquanto seres humanos. A
lógica vigente prioriza tanto o individualismo que muitas vezes perde-se a
dimensão de que a construção de quem somos se faz na relação com o Outro, num
ciclo em que tudo que foi faz parte do que é a partir do momento que me lembro
de algo e revivo esse algo. E aqui coloco, nas palavras de Ecléa Bosi, que
lembrar é trabalho, é construção: “a lembrança é uma imagem construída pelos
materiais que estão, agora, à nossa disposição, no conjunto de representações
que povoam nossa consciência atual”.
Sendo a memória construção
indispensável para a elaboração de nossa identidade, e levando em consideração
que a construção da identidade diz respeito a como nos posicionamos frente ao
mundo, devemos atentar para essa tendência de diminuir a importância da
memória. Afinal, como disse Buñuel, “sem ela, somos nada”.
[Texto publicado no site Causas Perdidas]
[Texto publicado no site Causas Perdidas]
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