domingo, 4 de maio de 2014

Feliciano e mais uma atrocidade na “Comissão de Direitos Humanos e Minorias”: aprovado projeto que permite que templos religiosos vetem a presença de gays



Marco Feliciano nunca deixa de surpreender. O problema é que as surpresas vindas dele nunca são boas. Hoje, a “Comissão de Direitos Humanos e Minorias”, sob presidência do pastor, aprovou projeto de lei que visa alterar uma lei de 1989 que tipifica como crime a prática, incitação ou indução à discriminação ou preconceito de cor, raça, etnia, religião ou procedência nacional.
A justificativa para a alteração é que os líderes de templos religiosos não poderiam ser criminalizados por rejeitar pessoas “em desacordo com suas crenças”. Dessa forma, o que a alteração da lei faria seria legitimar a discriminação de quaisquer outras pessoas que, de um jeito ou de outro, representassem uma afronta aos dogmas religiosos de determinada instituição religiosa. Nesse sentido, um dos grupos mais prejudicados seria o dos homossexuais, que são historicamente discriminados por alguns grupos religiosos extremistas e se utilizam desta lei quando são discriminados, por não haver lei específica para a discriminação contra esse grupo. No caso de a lei ser aprovada, religiosos não podem ser criminalizados se se recusarem a realizar casamentos homossexuais nem se decidirem não aceitar a presença dessas pessoas em seus templos.
Na prática, este é mais um dos tantos projetos de lei sem pé nem cabeça que tramitam no Congresso Nacional e, por ir na contramão dos avanços da luta pelos Direitos Humanos e da compreensão internacional da discriminação como prática a ser combatida, creio que não represente uma real ameaça a ninguém. O fato inédito e preocupante – que justifica as aspas que utilizei no início do texto quando me referi à CDHM – é que uma Comissão cuja principal preocupação é zelar pelos Direitos Humanos de minorias aprove um projeto que, além de homofóbico e preconceituoso, representa um retrocesso sem igual na busca pela garantia de direitos.
É certo que essa discussão levanta temas polêmicos e que devem ser discutidos. A liberdade de expressão e a liberdade religiosa devem ser preservadas, sem dúvida, mas é preciso traçar a linha (tênue, talvez) que separa liberdade de expressão com discurso de ódio. Mais ainda, é urgente que debatamos se é cabível ou não que alguém se esconda por trás de dogmas religiosos para que, a partir deste lugar, reproduza seus preconceitos. Por último (mas não menos importante), devemos lembrar que o Estado laico é essencial para a garantia de direitos, portanto a liberdade de manifestação de crença não pode ultrapassar os limites da laicidade para se usar de mecanismos legais que legitimem quaisquer violações de direitos que possam vir a fazer sentido dentro de um determinado dogma religioso.
Não há muito mais o que dizer. Desde que Feliciano assumiu a presidência da CDHM e a bancada evangélica tomou conta da mesma, atrocidades como essa vêm aparecendo de tempos em tempos, nos deixando com essa terrível sensação de que a entrada do pastor na Comissão foi um dos maiores erros da política brasileira – e cada vez mais demonstram que misturar política com religião pode ser um enorme problema para a construção de uma sociedade democrática e igualitária.

[Texto publicado no site Causas Perdidas]

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