É difícil falar de Direitos Humanos sem parecer falso moralista. É difícil também abordar o tema sem que um mundo de gente acuse você de um mundo de coisas. Os argumentos daqueles que acham que "Direitos Humanos são uma bobagem" e que, por exemplo, "lugar de bandido é na cadeia" podem parecer, à primeira vista, logicamente viáveis. Entretanto, um olhar um pouco mais atento mostra que a lógica rapidamente se desfaz. Usemos como exemplo o argumento "quero ver se um bandido matar alguém que você ama, se você vai defender os direitos dele". Passar por uma situação trágica de perder alguém querido deixa marcas e dores profundas. Vivemos o luto com dificuldade tremenda, buscando uma explicação que nos conforte. Não suportamos a ideia de que alguém seja capaz de chegar ao máximo da violação de direitos, que é a violação do direito à vida. Para muitas pessoas, a solução para isso é a pena de morte. Pensemos, pois: nos parece insuportável perder alguém que amamos; porém, por algum motivo, é perfeitamente aceitável que outra pessoa perca alguém que ela ama. Sim, pode parecer uma enorme novidade, mas pessoas que cometem crimes também têm pais, mães, filhos, esposas, maridos, amigos. Mais ainda: lutamos diariamente para que nosso direito de viver seja preservado e respeitado, porém queremos que isso seja alcançado a partir da violação desse direito de outras pessoas. Dizer que "essas pessoas não merecem seus direitos porque violaram os
direitos dos outros" por si só já elimina qualquer possibilidade da pena de morte fazer sentido, pois, violando os direitos alheios, você, que defende essa lógica, automaticamente deveria admitir que deve perder seus direitos também, já que estará violando direitos. Não obstante, existe uma outra questão, bem mais simples que as anteriores: se você tem o direito de matar uma pessoa porque ela matou outra pessoa, é necessário admitir que outro alguém também pense como você, e, assim, mate você por ter matado essa primeira pessoa. Imaginem isso como um círculo infinito, em que todas as pessoas do mundo acabarão se matando, levando ao fim da raça humana. Isso faz algum sentido?
A ideia de que a prisão não ressocializa ninguém - que é a justificativa, muitas vezes, para a pena de morte - talvez tenha sua origem e explicação no fato de não haver, de fato, interesse em ressocializar ninguém. Buscamos bodes expiatórios que carreguem sozinhos a culpa e os punimos, num movimento de punição por punição que tem como objetivo acalmar um sentimento de vingança e nos isentar de uma culpa que é social, coletiva, e não individual.
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