Hoje acordei com uma sensação de alegria inexplicável. Vivi para ver e fazer parte do dia em que o mundo inteiro, inclusive nós mesmos, veríamos o Brasil como um país que luta. Centenas de milhares de pessoas foram às ruas em todo o país, mostrando que a juventude da "geração coca-cola" não é tão alienada quanto se pensou até então. Acordamos, saímos da inércia. O que começou com protestos contra o aumento da passagem do transporte público se transformou na gota d'água para que saíssemos do facebook e fôssemos às ruas lutar pelos nossos direitos e cobrar dos políticos posicionamentos e mudanças. Mesmo quando era "só" pela passagem de ônibus, nunca foi "só pelos 0,20 centavos". Era sim por causa do aumento, considerando que 0,20 centavos fazem uma diferença gigante no fim do mês pra grande parte dos brasileiros que tem que viver com salários indignos. Mas era também - e principalmente - pelo fato de que aumenta a passagem e não melhora a qualidade; por causa dos acordos criminosos entre governos e grandes empresas que visam o lucro dos empresários muito mais do que o bem-estar da população; por causa da máfia em que estão envolvidas as companhias de ônibus em diversas cidades; pelo descaso para com o brasileiro trabalhador, que passa horas enlatado dentro de um ônibus precário. Continua sendo contra tudo isso que estamos lutando. Mas agora é muito mais: a manifestação do Movimento Passe Livre, somada à ação violenta, brutal e desmedida da polícia militar na última quinta feira, foi o estopim pra que todas as nossas insatisfações viessem à tona. Agora, protestamos contra a tarifa de ônibus, contra a corrupção, contra a violência policial, contra a negligência do Estado, a favor da transparência nos acordos entre governo e empresas privadas, contra a roubalheira nas licitações, contra o desvio de verba, contra a mídia que manipula, em favor da laicidade do país que anda tão ameaçada, contra a priorização de estádios em detrimento de educação e saúde. São muitas causas, muitas bandeiras, muitas lutas. Alguns dizem que isso faz com que não haja causa nenhuma e isso fará com que o movimento de dissipe, se perca. Eu, particularmente, não podia discordar mais: são muitas causas porque são muitas as insatisfações e porque perdemos muito tempo e só agora nos demos conta do poder que temos como povo. No fim das contas, a causa é uma: lutamos por um Brasil melhor.
A repercussão disso tudo é tão grande que um monte de gente que encheu a boca pra chamar os protestantes de "vagabundos" e "vândalos" agora apoia o movimento e comemora conosco esse momento. Arnaldo Jabor, que falou estupidamente sobre os protestos na semana passadas, dizendo que os manifestantes "não valiam nem 0,20 centavos", falou ontem de manhã na CBN que "errou", e afirmou que o engajamento dos jovens (os mesmo jovens que ele xingou dois dias antes de "filhinhos de papai de classe média que nem pegam ônibus") é importantíssimo e legítimo. Datena, que quebrou a cara em pesquisa ao vivo no programa perguntando "você é a favor de protestos de baderneiros?" quando viu que a maioria esmagadora das respostas era favorável ao movimento, se redimiu e disse que "prefere o povo à polícia". A mídia, que reprimiu veementemente os protestos, com manchetes sobre os "vândalos", ontem tomou todo o cuidado do mundo ao repetir duzentas vezes sobre "a minoria, muito pequena mesmo" de manifestantes que praticaram atos de vandalismo (mas, ainda assim, os jornais insistem em colocar nas manchetes essas minorias que não representam as outras milhares de pessoas - dentre as quais estão os estudantes que hoje foram limpar o centro do Rio de Janeiro que foi depredado ontem no fim da manifestação). Vários conservadores, os queridos e velhos conhecidos "reaças", estão aproveitando a repercussão pra tirar proveito da situação e parecer que lutam pelas mesmas causas que o movimento. Isso tudo só prova que o movimento é forte e estamos fazendo barulho - barulho necessário para mostrar que estamos atentos e queremos mudanças.
Tenho excelentes pressentimentos acerca do que vai acontecer daqui pra frente no país. Pode ser que as tarifas de ônibus diminuam e depois subam novamente; pode ser que em alguns lugares elas continuem as mesmas. Caso isso aconteça, vamos continuar lutando. Mas acima de tudo isso, provamos ao mundo e principalmente aos governantes que da mesma forma que fomos nós quem os colocamos lá, somos nós quem vamos tirá-los do poder se eles não forem representantes das vontades do povo. Essa é uma vitória que não tem como ser apagada. Isso vai entrar pra história, e o orgulho de poder dizer "eu fiz parte disso" é tão grande que me enche os olhos d'água e me dá vontade de gritar pros quatro cantos do mundo isso que sempre senti a agora se fortalece a cada notícia que leio, a cada post no facebook, a cada foto que vejo: eu sou brasileira com muito orgulho.

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