Os protestos contra o aumento da passagem em São Paulo trazem vários temas para debate. Primeiro, o valor abusivo da tarifa do transporte público no Brasil. Conforme publicou o jornal El País no último dia 12, gastos com transporte no país chegam a mais R$200,00, numa realidade em que um salário mínimo é de R$678,00. A luta dos manifestantes do chamado Movimento Passe Livre - nome que tem mais a ver com um ideal de sociedade livre (não é livre que não pode ir e vir por não ter como pagar a passagem do ônibus) do que propriamente com a redução a zero das tarifas de transportes - é justa, digna e tem como objetivo construir no Brasil um sistema de transporte público de qualidade e com um preço que seja condizente com o serviço prestado e com a realidade social do país. Segundo, a maneira com que a mídia tem tratado esses acontecimentos: os manifestantes passam a ser vândalos, vagabundos que estão fazendo baderna "só por 0,20 centavos". Isso não é sobre 0,20 centavos. Isso é sobre direitos, sobre cidadania e sobre justiça social. Uma minoria dos manifestantes que agiu de maneira violenta está agora representando um movimento inteiro, cuja maioria esmagadora vai às ruas pacificamente. Isso não é, como muitos podem dizer, argumento "desses loucos cheios de tramas conspiratórias contra a mídia". Isso é fato. O Globo Mundo chama de "manifestantes" na França o que chamam, no Brasil, de "vândalos". Não é uma mera troca de palavras. Felizmente, tenho visto outros meios de comunicação que não a Globo retratarem de maneira mais coerente os acontecimentos da semana em São Paulo e em outras cidades como Rio de Janeiro e Porto Alegre, mas ainda é forte a deturpação dos fatos. Terceiro, a ação desmedida e de violência fora do comum da Polícia contra os manifestantes. Estamos assistindo à criminalização dos movimentos sociais e isso é perigoso para a democracia: pessoas foram presas por portar vinagre. O vinagre é usado para diminuir os efeitos do gás lacrimogêneo. A justificativa para prender essas pessoas é que o vinagre pode ser usado na fabricação de bombas. Se não fosse trágico, seria engraçado. Estranho não é ter vinagre numa manifestação. Estranho é ter que levar vinagre para se defender de uma polícia que deveria proteger, e não atacar. Estão presos também grupos acusados de formação de quadrilha. Outros, porque tinham lenços em suas bolsas. Vídeos mostram policiais quebrando os vidros da própria viatura, policiais atirando em um manifestante que dançava, policiais usando balas de borracha contra pessoas que nem estavam participando da manifestação. Jornalistas foram atacados e presos. Um grupo que gritava "sem violência, sem violência" foi vítima de um ataque arbitrário da tropa de choque da polícia. Ninguém é a favor da violência: os meios não justificam os fins. Por esse mesmo motivo, a ação da polícia é absolutamente injustificável, e é ainda mais condenável que a dos poucos manifestantes que se mostraram violentos: ela é legimitada e ordenada pelo Estado. O que me leva ao quarto tema, a podridão cada vez mais aparente do governador de São Paulo Geraldo Alckmin, que comanda e aceita a ação violenta da polícia e já disse mais de uma vez que "não vai recuar" e "não está aberto a diálogo". Se o governador não está aberto a diálogo, o que resta à população, senão ir pras ruas e lutar pelos seus direitos? Se esses direitos são negados desde o seu nível mais básico, como pode se dizer que os bandidos são os que protestam, e não o Estado que negligencia?
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