Vez ou outra temos o privilégio de ler textos que despertam em nós uma vontade de mover-se, revoltar-se, de dizer pros quatro cantos do mundo como nos sentimos. É o caso do texto de Eliane Brum, "Os loucos, os normais e o Estado", publicado hoje no site da revista Época (http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2013/06/os-loucos-os-normais-e-o-estado.html). A reportagem trata do livro "Holocausto Brasileiro - vida, genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil", de Daniela Arbex. No livro, a autora traz histórias das pessoas que, durante muito tempo, foram jogadas, trancafiadas e esquecidas na Colônia, o famoso hospital psiquiátrico de Barbacena.
A ideia de que a loucura é perigosa não vem de hoje. Há séculos a sociedade, a partir de uma eleição arbitrária do que é normal ou patológico, prefere tirar das vistas tudo aquilo que a incomoda. Esses que são, então, enquadrados no "diagnóstico" de loucos, não são considerados pessoas - e esse estatuto de não-pessoa é o que legimita toda a violência contra eles aplicada. Suas vidas são apagadas, seus discursos, ignorados, suas dores, suprimidas pela ideia de que nada têm a acrescentar e portanto não precisam ser ouvidos. Mesmo vivos, estão mortos.
Os relatos que Eliane Brum traz no texto, tirados não do livro de Daniela Arbex, mas das vidas desses indivíduos cujas existências foram por tanto tempo negligenciadas, nos mostram um verdadeiro circo de horrores banhado a eletrochoques, torturas, condições degradantes e invisibilidade social. É o caso de Antonio Gomes da Silva, que passou 21 anos internado no hospício; durante esse tempo, nenhum médico ou funcionário falou com ele e, assim, ele foi considerado mudo. 21 anos sem trocar palavra, carinho ou atenção. 21 anos vivendo como um vegetal - sequer vivendo: sobrevivendo em um ambiente hostil onde foi enfiado à força.
É importante perceber que situações como essa, em que chegou-se ao ponto de morrerem 16 pessoas por dia, acontecem porque existe um aval da sociedade e do Estado para que elas aconteçam. Não são ocorrências que nada têm a ver conosco. Pelo contrário, são um retrato de como nós - a sociedade - compreendemos nossos problemas e nossas dificuldades. E o mais importante é ter consciência de que esse não é o passado sórdido do nosso Brasil: essa ainda é a realidade para muitas pessoas que, por um motivo ou por outro, foram consideradas incapazes de conviver em sociedade.
Comecei dizendo sobre a vontade de falar sobre essa revolta que sinto ao me deparar com todas essas injustiças. A mim, pelo menos, me é dada a possibilidade de falar. Já a essas pessoas, que sofrem diretamente as consequências do holocausto manicomial... a elas, não.

Nenhum comentário:
Postar um comentário